sábado, 19 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA

A história é uma coisa muito ultrapassada.
A moda agora é o agora.

A LAS PUCHAS

A las puchas
A las puchas não: a La outra
A la outra não: a la misma
A La misma não: a las puchas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SARAMAGUÊS


Se Romeu tivesse os olhos de um falcão, provavelmente nunca teria se apaixonado por Julieta.

BONECA MATRIOSCA


Quantas faces dentro
Obsoletas pelas circunstâncias
Reservadas, como se não fossem
Auto-explicativos todos os teus atos

E tua boca santa
Entre o beijo e a ira
Dizia coisas, bem de dentro vinham
Como as tuas caras,
Anônimas e vorazes,
Que aparecem pouco entre os dias...

Mas quem de fato te conhece
Vê-te uma, vê-te todas
Pois o que és liga teu imo
A todas tuas aparências...
E era eu quem não te via
Entre os dedos que te modelavam...

PRIMITIVO ROSAURO


Ele achava que ninguém no mundo tinha o nome mais feio que o seu... Na real, sua mãe, quando o chamava pela rua, parecia sempre brava. Parecia... ela era uma mulher bacana, a dona Lorena, o nome de seu filho, Primitivo Rosauro, é que soava como um xingamento.
Os amigos, pequenas e cruéis crianças, zombavam de Rosauro pela feiúra do nome. Feiúra tão intensa que sujava a cara, fazendo com que aquele menino fracote, mas meiguinho, ficasse feio também. E isso foi pela vida afora, em todas as fases, aquele nome
[Primitivo Rosauro
foi, na verdade, uma condenação... uma prisão pertpétua.
***
Não arrumou namorada... não conseguia se apresentar em público... Não queria ver seu nome em nenhuma lista de universidade ou concurso federal... guardou a sete-chaves sua genialidade musical apenas para nunca ser famoso...
Ele não se olhava no espelho... não tinha fotos dos pais... não foi batizado, nunca se casou... não organizou eventos nem lançou negócio algum que pudesse revelá-lo, de alguma maneira, à sociedade que, mesmo quieta e inerte ao seu anonimato,
[o melhor dos anonimatos

o ameaçava pelo simples fato de existir.
***
E quando morreu, já velho, seu nome fora timbrado na lápide e o acompanhou pelos idos, enquanto existisse memória.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

MINHA CALÇA NOVA


A minha calça nova é tão bonita que eu não vou usá-la nunca.

ASSINTAGMÁTICA

Criou ela uma vontade de chorar
Que já não entendia mais palavras
Tudo o que era ordem se perdeu
Como se chovesse dentro,
Como se o ar a espreitasse...

Mas não foi fogo, não foi nada
Era o tempo construindo estrada
[uma infinda estrada
Que dava em lugar nenhum
E que não dava pra ninguém passar...

E enquanto há chuva na janela
Entendeu que o certo era passageiro
Como todas coisas que sua mente desenhava
E desejou ficar-se nu
No mar
Entre os portos.

TODA RELIGIÃO É MORTA

A fé não torna o indivíduo diferente do que ele realmente é, apenas mais cínico quanto ao mundo a seu redor. A religião é um artifício para enganar a vida e para aproximar o ego do indivíduo de um fator que ele denomina deus, ou “seu deus”.
O amor é a única religião: dele todas as coisas derivam e a ele todas retornam. Ele é a causa e o efeito da existência; a liberdade dos conceitos; a não-dogmática, pois cada pensamento restringe o todo, e cada restrição é uma forma de medo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

PEQUENA FÁBRICA DE ESTRELAS


Pequena fábrica de estrelas
Jogando luz no universo preto
Buscando a matéria-prima do que somos
Que a alma vai até o esqueleto...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O QUE SE QUER VER?


Infinito reflexo de espelhos
Aonde vão meus corpos em fuga?
Todas as coisas se ressaltam, multiplicam
A luminária ao chão...
A janela translúcida...

Quando sonho, não me vejo
Talvez até nem faça parte dos meus planos
Pois o que penso tem limites
E ao dormir, já não sei quem sou...

***

Acendeu uma vela na varanda
O vento, brando, permitiu-lhe a chama
E pela sombra clara, tilintante,
Desenho na brisa dançante
Rastro do mundo que saiu do escuro

Aquela luz já era boa
[embora pouca

O que, de fato, precisamos ver?

A BOCA DA FORMIGA


A formiga cabeçuda
Come o mundo em migalhas
Que tudo é pequeno para sua voraz boca
[incomensurável boca

Ainda bem que formigas não falam...

FLORES MORREM DE VERDADE


Morri
Faz 15 anos que não piso aqui
E o que restou, algumas fotos
Lembranças poucas...
Quem me conhecia, já esqueceu
E o que juntei coube numa caixa
As outras coisas, a elas pertenci.

***

Morri agora
Faz bem pouco
Aprendi aquilo que eu não sabia...
Cada vez que aprendo, morro àquilo que cria
Muitas mortes tive, tantas eu terei
Sem lágrimas, só flores
Pois flores sim, morrem de verdade.

A TROMBA E O RABO

Ele se achava estúpido
Olhando no retrovisor
Um espelho de ilusões
A começar por sua cara estranha...

Depois da cara,
Um mundo que não alcançava
Um tato distante,
Mera memória

O elefante tem mais tromba do que rabo
E ele, naquela gorda estrada,
Queria mais curvas...
Muitas mais...

ZZZZ

Como pode um mosquito fazer tanto barulho?

CM

A vida se mede em largura, não em comprimento.

PESSOA

Quem questiona as pessoas
Muito mais pessoa é...

domingo, 6 de dezembro de 2009

LIRA AO JOÃO


Cai a chuva lá de riba
Tamborilhando no chão
Eu canto, que o peito canta
Na lira do coração
Cantemos, que a vida passa
Como chuva de verão...

LEMBRANÇA À CRÍTICA


Meus cumprimentos a todos aqueles que, de um jeito ou de outro, não me ajudam pra nada!

MINHA MÃE ADOLESCEU


Minha mãe adolesceu. E adolesceu gravemente. O doutor disse que às vezes é normal, nesta faixa etária. Terceira idade é fogo, diz ela.
Reparei que vários amigos dela adolesceram também... E muitos estão adolescendo numa velocidade crônica. Dizem que visitas são bem-vindas, que proferir atenção faz bem para estes idosos que adolescem, mas eles não aceitam chá: gostam mesmo é de uma cervejinha gelada. O que fazer? Já trabalharam muito, deram muito gás na vida (e continuam dando, né mãe?)... agora, que entraram na terceira idade e adolesceram, vamos deixá-los fazer o que quiserem.
Podem sair... voltar de madrugada... dançar, agitar, viajar e muitos outros ar... Aproveitem, porque após adolescer nunca se sabe o dia de amanhã...

Se é que antes se saiba...

PAVLOVIANICE


Vejo minha face refletida no riacho... Aqueles olhos, que obeservam tudo e me transformam narrador do que entendo vida, agora brilham, numa transparência insípeda que, sobre as pedras e folhas se desenha.
O que tenho é pouco, é o próximo suspiro. É o ar imenso que preenche o tempo do mergulho, uma linha reta que separa o calor do corpo do gelo do mundo. E penetro a cara momentaneamente quieta, de olhos cerrados, e desapareço na quadridimensionalidade que absorve tudo.
O caminho do rio é leste, é baixo... E ando como ele: fazendo de conta que nada acaba...