terça-feira, 28 de maio de 2013

SABICÃO


Eu cheguei numa cidade do interior de Santa Catarina... tão pequena que até os restaurantes fecham ao meio-dia; até os cachorros têm tempo pra não latir, ficam curtindo o marzão que parece querer comer o horizonte e as dunas... Eu não sei porque aqui os cachorros são diferentes, não latem, ou se latem, latem baixo... eu já não lembrava como era uma noite sem os constantes latidos do Laranjal... aqui o som permanente é o da maré, que de noite bufa alto e na madrugada é um apelo pra beirar a praia.

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Eu já vim aqui umas quatro vezes... eu costumo voltar sempre aos mesmos lugares, pois quando repetimos os lugares visitados, percebemos o quanto temos mudado.

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Eu lembro de um lugar que me marcou quando criança... uma árvore que eu gostava de subir
[ainda nem era um jacarandá na minha mente de menino, apenas uma amiga com folhas e galhos e flores e braços...

Havia também uma calçada de ladrilhos com estranhos degraus... eu tinha uma sensação de alegria absoluta naquele espaço e voltei lá, depois de décadas, mais impuro e terrivelmente responsável. Eu já não era um anjo; eu havia poluído meu coração com o mundo dos adultos... eu agora era um cara sério, em breves e repentinas férias, procurando a si mesmo; buscando uma brasa que pudesse virar chama e queimasse estes tênues gravetos de meus subterfúgios biográficos...

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O jacarandá era menor, ou era meu ângulo de visão que havia mudado... eu cresci, ora bolas... deixei de achar graça naqueles galhos retorcidos que eram, ao mesmo tempo, obstáculo e glória. A calçada também estava diferente... a escada, agora tão pequena... nem parecia aquela que eu subia com a ajuda das mãos...
Aquele lugar definitivamente não era o mesmo... não era o lugar da minha memória... era apenas o mesmo endereço. Mas tudo bem, eu também já era outro, como sempre, a todo instante outro... mas quando eu cheguei lá eu entendi a minha própria visão; eu percebi várias coisas sobre mim, sobre as pessoas que me cercaram desde os idos tempos em que esta escada era grande até agora... todas as transformações... Então que eu percebi a vida é uma transformação rápida e constante, como as ondas que não param de chegar na orla, no seu tempo
[sempre certo tempo

e que, assim como as ondas, a vida é bela, forte e admirável... Mas a vida só é fantástica pra quem percebe, como o horizonte é percebido por um sábio e sereno cachorro, a lançar seu silêncio no mar...

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