domingo, 26 de setembro de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

UM CAMELÓDROMO E DUAS ESCRAVIDÕES


Foi levado à forca o preto Belizário, que vibrou grande número de punhaladas ao senhor e sua senhora, deixando caídos como mortos (...) julgado criminoso, Belizário foi condenado a morte. Sua execução teve lugar à esquerda da antiga ponte de madeira, hoje de cimento armado, a rua Riachuelo, além do Arroio Santa Bárbara, onde existe atualmente uma barraca de couro, local onde foi levantado a forca. (...) Para assistir ao horrível ato, o povo, ávido de curiosidade, em todo o trajeto desde a cadeia até esse local, seguia o condenado, formando volumoso séquito, sob a cadência lúgubre do cerimonial, assim o acompanhando até seu último instante de vida, indo ele vestido da fatal túnica alva dos enforcados.

BENTO, Cláudio Moreira. O negro e o desenvolvimento na sociedade do RS (1635-1875). PoA: Grafosul/IEL/DAC/SEC – 1981, p 203-4.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO


A última porta era a saída
De fora pra dentro, a entrada
Lá fora, o mundo muito vasto
Lá dentro, quase nada

No olhar do estrangeiro
A grama retiniza o verde
E o olhar
[o primeiro olhar

Daquele verão
Esqueceu outonos
E foi pra sempre
[até o fim, pra sempre.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

MARIDO DE ALUGUEL


Ouvi dizer que existe um emprego novo no pedaço: o marido de aluguel. É simples, você (mulher ou homem(?)) pega o telefone do indivíduo nos classificados (quiçá em breve nas páginas amarelas do guia telefônico mais próximo, se é que ainda existirão guias telefônicos) e o chama para aqueles afazeres que só o maridão que você nunca teve poderia realizar.
Já dá pra ver os anúncios.
O ralo entupiu? Disque-marido. 0800...
Trocar o gás? Tem ladrão no pátio? A senhora está precisando trocar um pneu? Chame o Marido de aluguel...
Massa... o marketing ia ser uma barbada.

***

Foi aqui que chamaram o marido de aluguel?
Foi sim.
E qual o seu problema, senhora?
O senhor faz sexo?
Hum... infelizmente não, minha senhora. Pra sexo a senhora tem que ligar pro namorado de aluguel. Marido não faz sexo. A categoria marido é só pra serviços leves. E rango incluso no serviço, hein!?

***

Com licença!? O senhor vai ficar o dia todo deitado nesse sofá?
Por quê? Algum problema com isso?
Não, nenhum... é que quando eu liguei pro disque-marido, eu achava que...
Que alguém viria aqui e faria os trabalhos da casa, não é mesmo? Ah, minha senhora. Veja bem: a senhora contratou um marido de aluguel. Qual é a coisa que o marido faz de melhor? Não é deitar no sofá e ver TV? Pois então, a senhora fica tranqüila que eu sou um marido nato... eu sei o que to fazendo... Sou o melhor marido de aluguel do mercado... igual a mim, minha senhora, só mesmo um marido de verdade. E isso a senhora sabe bem o que significa, não sabe?

JANELA ABERTA


Meu blog e eu às vezes sumimos um do outro. É como uma crise profunda de relacionamento, onde um não atura mais a cara do outro e se precisa de um tempo... um tempo sem se ver para que dê saudade... um tempo para conseguir entender o quanto se precisa um do outro... se realmente se precisa...

***

Nietzsche diz que não amamos o outro, precisamente. Amamos aquilo que o outro pode nos dar. Quando ele não pode mais nos dar o que queremos, o amor transmuta. Então o amor, ou o sentimento que se aproxime mais dele, não vem de fora: vem de dentro. E é ele então uma manifestação sentimental egóica de interesses pessoais, finita, interdependente a um objetivo racional (consciente ou inconsciente).

***

Talvez o amor seja uma flor no bouquet dos sentimentos, dentre outras. Muitas cores, cada qual uma beleza mais querida. E amor lá, até a última pétala, amando...

***

Pra mim o amor é ponto de partida e de chegada...

***

O amor é a janela aberta.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

RUA DA PRAIA

Enquanto eu ando a pé, o mundo passa de uma forma mais lenta. Nas paredes, mais janelas...nas calçadas, muitas cores... e entre esquinas, mil ideias...
O problema todo é a hora de chegar. Ah... essa hora de chegar... Se não fosse ela, cada rua seria uma praia...

ILHA DESCONHECIDA

A genialidade e a estupidez são dois barcos no mesmo porto.

ZECA BELO

O penteado é a mentira da cara.

MAGNETO 1

A coisa mais inútil do mundo é a razão depois do tempo.
O maior atraso que existe é o da certeza.
E é também a melhor ausência.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PONTE 2

A comunicação é um encontro no meio da ponte da linguagem entre o emissor e o receptor.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

VIVER MUITO É COISA DE VELHO


Ontem fiquei sabendo que meu novo filho, que nascerá em outubro, é um menino... ainda sem nome... esperando, como eu, que o tempo responda suas questões neonatas.

***

O tempo responde tudo... anseia... divaga... acelera... O tempo enche minha cara de rugas, minha cabeleira de fios brancos espalhados, se encontrando, do meio pra frente, daqui pra frente, cada vez mais...
Os amigos vão sumindo... os irmãos, ficando diferentes pela idade acrescida... aquele tio bacana já morreu... o carro antigo que o pai comprara não existe mais... naquela esquina agora tem um prédio enorme e o campinho de futebol virou três casas de concreto.
Tudo muda... tudo é impermanente... tudo deve fluir, sem que queiramos nos segurar no mistério das coisas... sem que tentemos estabelecer verdades eternas, rostos sempre iguais...

***

Mudar é bom e é por isso que morremos.

***

E eu, que estou ficando velho, já fui o nenê esperado de alguém, que foi um nenê também. E é essa mania dos bebês chegarem dominando o mundo que nos faz ter a impressão de que somos perenes como uma pétala...

***

A eternidade é o agora: feliz nele, feliz sempre.
Porque a vida se mede em largura, não em comprimento.

A VIDA DE ALFREDO


Encontrei o Alfredo no cemitério, num velório em comum. Ele me avistou de longe e caminhou, lentamente, em minha direção. Me apertou a mão e falou, com sua tenaz falta de ânimo.
Essa vida é mesmo uma merda!

***

Eu poderia ter dito que discordo, mas preferi o silêncio. Afinal, cada um vê a vida como pode. Eu vejo a minha como um jardim na tempestade... Há flores, raios, trovões e a chuva, que de uma hora a outra se transmuta de força a alimento e traz os mares ao quintal de casa.
A vida é show... é mágica... somos dela, cada um e todos, atores principais... protagonistas da própria história... E não tem segunda chance: é apenas na peça de estreia que subimos ao palco e fazemos, do roteiro, mescla do determinismo e da esperança, a ação que desejarmos.

AS INDAGAÇÕES


A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
***

Hoje, 30 de julho de 2010, kin 113, Caminhante do Céu Solar, Mario Quintana completaria 104 anos. No mesmo kin, há 104 anos atrás, o mundo começava a ficar mais belo...

CONTATOS MODERNOS


Alan Sieber

O HOMEM QUE NÃO SABIA MORRER


E era tanto frio naquele dia
Que nem o mundo acontecia
Na chama dos dedos, ele observava
[Sob os rastafaris do cobertor de lã
Os movimentos na calçada úmida

Era o ponto mais distante do verão
Mas o calor que lhe faltava
Era dentro...

O coração pode ser
O pior de todos os invernos...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

TROFÉU CHICO XAVIER


Passada meia-hora da Copa do Mundo na África, só se fala na Copa do Mundo do Brasil. Quem é a favor, quem é contra, o superfaturamento, o turismo e blábláblá. O que será que os estrangeiros vão pensar? Será que vão reparar as heranças históricas da exploração e do genocídio que provocaram e provocam aqui?
Ai... eu vou ficar com vergonha se os europeus notarem nossos mendigos e favelas.
Vou morrer de vergonha.

***

E o logo da Copa do Brasil 2014 parece o Chico Xavier espiritografando.
Por isso a Copa 2014 vai se chamar Troféu Chico Xavier, pois é pois é.

***

E a bola vai ser a Superfatulani.

***

E por falar em futebol, o time do Flamengo até que é bom. O que mata é o goleiro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

PEDRAS E LINHAS


Depois de alguns anos, caminhei por Santa Rosa, minha cidade natal. Aqui, já não lembro o nome das ruas, das tias e primos nem tão próximos assim, das pessoas... não conheço mais ninguém. As referências pontuais, quase todas perdidas. Lojas e comércios trocam de fachadas, trocam de placas, e parece que tudo é perto da casa da mãe, o centro do mundo aqui.
As ruas de pedras irregulares guardam estranhas linhas retas, como é metódico o progresso e estigmatizados os conceitos do correto... O alemão cortou a amexeira onde eu brincava e os vizinhos seguem invadindo a casa livremente pra saber como estamos todos, nossas profissões, os filhos, o quanto ganhamos e todas as informações possíveis que alimentem suas coleções mentais de vidas.

***

Mas todo motorista para na faixa de pedestres.

***

Tudo é cultural. A mente interpreta o mundo... É impossível ver o que não se pode entender. E todo entendimento chega no momento certo... nem um minuto a mais. Embora não pareça, o mundo começa e acaba no um. A cada indivíduo cabem seus passos e suas direções... E cada um elabora os conceitos que consegue... e executa aqueles que pode. Mudando a si, muda-se o todo.

***

Porque a sociedade é como as ruas irregulares de Santa Rosa... Repleta de pedras tortas e linhas retas.

ENTRESQUINAS


A rodoviária de Giurá é uma esquina vazia na cidade.
A cidade de Giruá é uma esquina vazia do pampa.
O pampa é uma esquina vazia do mundo.
O mundo é a esquina vazia onde moro.

sábado, 10 de julho de 2010

O RIO E O OCEANO


Diz-se que o rio treme de medo antes mesmo de cair no oceano.
Olha pra trás, para toda sua jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, dos povoados... e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Pode-se apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece.
Apenas o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se o oceano.
Por um lado é desaparecimento; por outro, renascimento.
Assim somos nós: voltar é sempre impossível. É preciso ir à frente e se arriscar... é preciso, sempre, ter coragem.

CANTEMOS


Cai a chuva lá de riba tamborilhando no chão
Eu canto, que o peito canta, na rima do coração
Cantemos que a vida passa
Como chuva de verão...

***

Eu já vivi outras vidas. Ao contrário de muitos amigos meus, que já foram imperadores, Jesus (tenho dois amigos que já foram Jesus), mártires, eu fui um operário... Trabalhei tanto que nesta vida eu não quero nada... só vagabundear.
Fui com o Dico e o Nando visitar o cemitério... o túmulo dos avós, do pai e até do tio Torres, encontrado na sincronicidade. Então pensei, ao ver uma cova aberta, a terra espalhada no chão: se eu já tive outras vidas, é porque eu já morri também outras vezes. E se o eu que já morreu estivesse enterrado aqui, neste cemitério? E se o meu outro corpo, passado, já estiver putrefato e comido pela terra, então eu posso ser esta terra aqui, que o eu novo pisa agora. Posso até estar numa árvore dessas, que sombreia a cidade dos mortos... a cidade que só cresce... Então o eu de agora pode estar pisando na terra do eu antigo... ou até mesmo cheirando a nova flor deste ipê em que me transformei.

***

Morrer não deve ser ruim. Todo mundo tá rindo nas fotos... E ninguém vai embora nem reclama...