Meme J.
Escritora americana com incontinência urinária.
terça-feira, 30 de julho de 2013
LOBISOMEM DO SUCO
Essa noite eu sonhei com lobisomem e lembrei do Baixinho do Suco.
O Baixinho do Suco é um cara todo peludo... parece o Tony Ramos, mas é o Baixinho do Suco.
Ele tem cabelo nas costas, orelha e nariz, sem contar os braços e pernas cabeludas... a ilha perfeita pra piolhada...
Mas a cabeça é careca, vê se pode!
Agora, o mais bacana de tudo é que a mulher dele raspa a nuca dele
[e parte das costas
E aí ele fica com aquela meia-lua raspada na nuca que é pra não fundir a cuca, não dar cheiro ou sabe-se lá porque!!!
***
Então eu fiquei pensando, acordado, no tal do lobisomem.
Imaginei o lobisomem real, homem comum de dia, monstrengo de noite.
E poderia, inclusive, ser o Baixinho do Suco.
Que nas noites de lua cheia sai por aí à procura de um pescoço.
E acorda com a roupa rasgada e fios de seda no meio dos dentes!
***
Aí o lobisomem vai numa entrevista de emprego.
Como o patrão viajou e tá cheio de compromisso, ele
[em seus motivos patronais
marca a reunião pra noite.
Aí o homem-lobisomem-Baixinho do Suco, forte candidato à vaga, senta à sua frente.
Só que o papo rola, a entrevista demora, o Baixinho vai contando suas especialidades, o patrão vai mexendo no seu i-phone 8 e o relógio vai andando...
A cada volta do ponteiro, o Baixinho se coça...
Sente que em poucos minutos não será mais ele, pitoresco homem com pelo raspado na nuca, mas sim um bicho terrível, comedor de carcaças com bafo de açougue.
Só mais uma pergunta, e mais uma, e outra.
Até chegar o momento inevitável e insuportável do Baixinho virar um lobo.
E ele começa a gritar... a roupa a rasgar... a unha a crescer, assim como o pelo da nuca se repõe...
E o Baixinhosomem salta sobre o patrão de terno e o come, bem comido, como se fosse uma coxa de galinha.
O Baixinho fica sem o emprego e outra muda de roupa.
Volta a vender suco de dia, no estacionamento.
Com uma vaga lembrança de que comera alguém importante, um patrão com i-phone 8.
E, assim, relatando à sua mulher depiladora, ela se enche de orgulho...
Lhe faz um cafuné, passa sabonete nas costas e o depila novamente
[incansável e apaixonadamente...
Sem saber se tem sorte ou azar, privilégio ou pena...
E amarra seu Baixinho no quintal, até passar a lua cheia.
***
Mas na próxima reunião
O Baixinho já sabe de antemão
Vai confessar sua melhor profissão:
Lobisomem!
segunda-feira, 29 de julho de 2013
UM HOMEM SOLITÁRIO
Perdido num ponto entre a liberdade e o conceito, resta ao homem solitário, frente à dúvida e o acaso, a sobrevivência.
[como todos sobrevivem
Iludido pelo fracasso e pelo êxito, receoso a cada nova dúvida... Quem vai e quem fica neste mundo tão escuro e belo? O que esperar do amor? Este amor que ao mesmo tempo é glória e ruína; que se torna cinza pelos métodos e vira apenas mais uma responsabilidade nesta vasta carta social...
Ele percebe, então, que a solidão é tanto caos quanto porta aberta... que nascera nu e morrerá sozinho, e que tudo entre estes dois acontecimentos, nascimento e morte, é ilusão regada de vontades transpassadas por gerações, impregnadas na genética do lobo por outros lobos, solitários como ele, enganados, como ele, pela falsa noção de eternidade...
***
A vida
É um curto-circuito entre duas eternidades de escuridão.
O nascer então é o estopim do brilho
E o morrer não merece as cínicas verdades de uma tarde de velório...
terça-feira, 23 de julho de 2013
O ÍDOLO E A VACA
O homenageado ganhou uma vaca.
Surpreendentemente premiado, ele achava que ganharia um troféu, uma placa, mas enfim... ganhou uma vaca.
Na cara dos organizadores do evento, a alegria de premiar um ídolo.
Ele, ídolo, muito educado (como é de costume dos ídolos, não?), sorria.
Mas no fundo, andava ele preocupado com o que faria com aquele leitoso bônus!
Uma vaca!
***
Ele abraçou e beijou a vaca.
Fotos de todos os lugares... flashes mais flashes...
Ele e a vaca, a vaca e ele.
Ele amareladamente mostrava seus dentes.
Ela apenas ruminava, mexia a cabeça vacosamente, mas mantinha-se em silêncio, comportadamente, afinal de contas, era o Grande Prêmio.
Ela, a vaca.
A música tocava...
As pessoas brindavam.
Aos poucos, os convidados iam abandonando o lugar.
Quase todos, até restar uma meia dúzia de fãs (os maiores fãs do maior ídolo da maior vaca).
Era o momento ideal.
O ídolo foi ao banheiro.
No final do corredor, deixara uma pequena janela aberta.
O vento entrava com sussurro de fuga pela tal janela.
O ídolo não fora mais visto na cidade.
E no final do evento, restou apenas a vaca.
Comportadamente ruminando.
***
Noutro dia, dezenas de cagalhões na sala de entrega do prêmio bovino.
Quem encontrou a vaca deitada e seus cagalhões foi a Carmem, da limpeza.
Que não era fã do ídolo.
E diga-se de passagem que o ídolo perdera vários fãs por ter abandonado a vaca.
E esse é o fim (se é que existe fim) pra esta breve história.
Uma história sem muita moral, mas muito leite.
Era isso.
Grande abraço.
E boa noite!
Surpreendentemente premiado, ele achava que ganharia um troféu, uma placa, mas enfim... ganhou uma vaca.
Na cara dos organizadores do evento, a alegria de premiar um ídolo.
Ele, ídolo, muito educado (como é de costume dos ídolos, não?), sorria.
Mas no fundo, andava ele preocupado com o que faria com aquele leitoso bônus!
Uma vaca!
***
Ele abraçou e beijou a vaca.
Fotos de todos os lugares... flashes mais flashes...
Ele e a vaca, a vaca e ele.
Ele amareladamente mostrava seus dentes.
Ela apenas ruminava, mexia a cabeça vacosamente, mas mantinha-se em silêncio, comportadamente, afinal de contas, era o Grande Prêmio.
Ela, a vaca.
A música tocava...
As pessoas brindavam.
Aos poucos, os convidados iam abandonando o lugar.
Quase todos, até restar uma meia dúzia de fãs (os maiores fãs do maior ídolo da maior vaca).
Era o momento ideal.
O ídolo foi ao banheiro.
No final do corredor, deixara uma pequena janela aberta.
O vento entrava com sussurro de fuga pela tal janela.
O ídolo não fora mais visto na cidade.
E no final do evento, restou apenas a vaca.
Comportadamente ruminando.
***
Noutro dia, dezenas de cagalhões na sala de entrega do prêmio bovino.
Quem encontrou a vaca deitada e seus cagalhões foi a Carmem, da limpeza.
Que não era fã do ídolo.
E diga-se de passagem que o ídolo perdera vários fãs por ter abandonado a vaca.
E esse é o fim (se é que existe fim) pra esta breve história.
Uma história sem muita moral, mas muito leite.
Era isso.
Grande abraço.
E boa noite!
quinta-feira, 18 de julho de 2013
NÃO DIGA NEM FALE
Não diga jamais que ela desafina
Não fale do sal do seu feijão
Há pouco tempo ela era menina
De saiote e sorrisão
Não diga que é tarde para amar, garoto
Não fale das unhas que ela coloriu
Talvez aquele outro coração tão roto
Seja como um cristal que já ruiu...
Não diga mais nada
Palavra, flecha partida
A frase cruel, se fora guardada,
Resta envelopada como a despedida...
domingo, 14 de julho de 2013
ÍNDIOS DA REDENÇÃO
Os índios da Redenção
Vendem orquídeas pelo chão
E cantam cânticos de lendas
Por moedas de cincoenta
Os índios não falam inglês
Um idioma, talvez, esquecido pelo tempo
Avenida repleta, homens vazios
O pardo escravo, branco cio...
Um pássaro
Mais perfeito artesanato
Índiga estatueta, muito mais que um fato
Olfato, um sentido
Uma flor no asfalto
No sol de domingo...
SEI DE COR
Uma chuva, trinta e quatro primaveras
O mundo no telhado
As cores do jasmim
Ele mora dentro do presente
Ponto onde todas luzes se convergem
O vidro opaco te transforma...
Eu sei de cor
Escutando o som da água na janela
Eu sei das cores que ainda vestem ela
Aonde estão os sonhos meus?
Eu sei
Eu ando ouvindo algumas frases prontas
Que para um poema não dão conta...
São frases soltas, sem ninguém...
Porém,
O ponto onde encontro esse desfecho
Do teu vestido eterno como este momento
Ao som da chuva na janela...
O mundo no telhado
As cores do jasmim
Ele mora dentro do presente
Ponto onde todas luzes se convergem
O vidro opaco te transforma...
Eu sei de cor
Escutando o som da água na janela
Eu sei das cores que ainda vestem ela
Aonde estão os sonhos meus?
Eu sei
Eu ando ouvindo algumas frases prontas
Que para um poema não dão conta...
São frases soltas, sem ninguém...
Porém,
O ponto onde encontro esse desfecho
Do teu vestido eterno como este momento
Ao som da chuva na janela...
sexta-feira, 12 de julho de 2013
PEDRA MARRONZINHA
Quando eu era pequeno, o mundo era muito maior.
Meus colegas de colégio, também pequenos, observavam o mundo assim como eu...
Aquelas professoras gigantes e poderosas...
A diretora brava...
Os imensos corredores, árvores do pátio...
Tudo era super-significante...
***
No final de ano, a turma preparava uma peça de teatro pra apresentar aos pais.
Era aquela grande confraternização...
Carros e mais carros no estacionamento...
Barulho de gente...
E a criançada tensa ao ver chegar rapidamente a hora de estrelar.
***
Naquela peça tinha lenhadores, lobo e menininha...
Tinha padre, professor e médico alucinado.
Vários papéis de destaque...
A criançada brilhava, os olhos dos pais brilhavam, a fivela do cinto do diretor brilhava.
Só que pra mim sobrou um papel não muito interessante: a Pedra marronzinha.
Eu era a pedra tão quieta quanto participativa...
Permanentemente no canto do palco, louca para ser amada em sua eterna vida pedrática!
***
Eu acordei com uma dor incrível na nuca.
Talvez fosse a sobra da supergripe que peguei...
A mãe das mães dos vírus.
Então, enquanto a dor me incomodava a parte traseira-direita da cabeça, eu olhei pros meus filhos...
Eles acordavam lentamente, tomando tetê...
Eu olhei pra Nena na cama e pensei:
E se eu estiver morrendo?
E se eu estiver de fato chegando ao fim?
Então pensei nas coisas que faço hoje... minhas ocupações e objetivos na vida...
Percebi repentinamente que meu cotidiano é repleto de bobagens...
De coisas e missões que eu realmente não acredito!
De pessoas chatas...
[talvez tão chatas quanto eu!
E concluí que, se eu tivesse certeza que estivesse morrendo,
Poucas das verdades que me cercam seguiriam comigo!
***
Na real, a falsa sensação de eternidade é a pior forma de perecimento.
***
Se me restasse poucos dias, eu deixaria de fazer quase tudo.
Trabalhar, bater ponto, projetos inúteis...
Pra quê cronogramas e objetivos?
Pra quê construções?
A morte, na verdade, representa a liberdade de todas essas limitações...
De todos estes intuitos humanos...
De toda essa estúpida forma de organização social, chave de casa, carteira de identidade, contas...
Niilismo... O nada... E Nietzsche que se vire no caixão!
***
Estar vivo é estar preso à peça insossa e infinda.
Uma peça onde julgamos ser os atores principais...
Diariamente principais...
Cheios de razão e verdade, de metas e conquistas...
Importantes egoístas à espera de sucesso... cada vez eu quero mais, como diz aquela infernal e psicossomática música carnavalesca...
E não reparamos aonde está o fim...
[a lógica inexata do fim, onde aplausos são desnecessários...
E persistimos grandiosamente em cena,
Brilhando, como a fivela da profe...
Pensando ser o doutor, o pai, o lobo...
Sem perceber que neste finito lapso que chamamos vida
Ser a pedra marronzinha é uma dádiva de simplicidade...
E permanecer sereno, observador
[de canto!
É um privilégio disfarçado de demérito...
Assim como a vida, tão rápida e fugaz,
Se disfarça de eternidade...
Para que nunca saibamos, em nossa pueril mente insana,
Que a peça está chegando ao fim...
Juntamente ao complexo mundo que formamos em nossa volta...
***
E como não crer nas utopias
Se a vida de verdade parece tão inverossímil?
segunda-feira, 8 de julho de 2013
domingo, 7 de julho de 2013
ONLIÚ
O Nenê Oxley era o professor pardal da galera. Sem grana pra
fazer grandes investimentos em sua sapiência experimentativa, o Nenê
engembrava, por assim dizer, mas não desistia de suas invenções. Era
praticamente um MacGyver morando na rua Guaíba... e todas as suas criações
terminavam amarradas com arame.
***
O Nenê também tocava contrabaixo na MS Band, que foi sucesso
total nos bailes das décadas de 60 e 70. A MS Band fazia covers de Beatles e
Elvis Presley como ninguém...lotava os salões e a poeira levantava sob as saias
brasa-moras e as calças boca-de-sino.
Mas o mais surpreendente de tudo isso é que ninguém na MS
Band falava inglês, mas todos cantavam em inglês. O segredo era a Sônia, mulher
do Nenê, que ouvia as músicas inglesas e escrevia num português soniático (ou
era inglês nenista?), ou seja, uma tradução aportuguesada com neologismos
homofonéticos das letras saxônicas (uau!).
***
Onli-ú
Ken meiqui au dãs urold sim ráit
Onli-ú
Ken meiqui dê darquinés braiti...
***
Mas a MS Band era boa mesmo, tão boa que músicos de todos os
lugares, quando vinham pra Pelotas em turnê, contratavam a troupe do Nenê para
banda base. E foi assim que os The Platters chegaram aqui no Paralelo 30 pelos
idos de 1970, ciceroneados pelo Nenê Inventor-baixista e a Sônia, a única da
galera que “falava” inglês.
Numa curtida de tarde, eles levaram os Platters pra conhecer
o Laranjal. Mas na Adolpho Fetter, o jipe-inventado do Nenê estragou... No
acostamento, várias (e improfícuas) tentativas de girar a chave... O Nenê e a
Sônia se olhavam... os Platters se olhavam... E quando os olhares latinos e
americanos se cruzaram, a Sônia falou:
Vocês ken pãch?
***
E lá foram os Platters empurrar o jipão do Nenê na direção
de Orange Beach (o Laranjal da
Sônia).
***
O Papa, já cansado de sua superprotegida vida papal, pediu
(ou ordenou?) ao seu motorista que o deixasse dirigir, ao menos uma vez, aquela
limosine.
Sem ter como negar um pedido de sua santidade, o motorista
deixou.
O papa engatou a 1ª, 2ª, 5ª e se tivesse 8ª, engataria.
Em poucos minutos dirigia (santificamente) a 240km/h na
autostrade per l’Italia.
Um policial rodoviário saiu em perseguição...
Luzes azuis e vermelhas... sirenes no retrovisor do papa-Senna.
Papa-Senna no retrovisor...
Encosta... encosta...
***
Quando da abordagem, o policial ficou assustado e ligou
imediatamente para o delegado superior.
É que eu abordei um
sujeito que é muiiiiiiito importante chefe... não sei o que eu faço.
Como assim muito
importante?
Muito chefe, muito
importante.
Mas quem é esse
sujeito afinal?
Olha... quem ele é eu
ainda não sei, mas pro senhor ter uma ideia, o motorista dele é o papa!
***
Aqui eu imaginei essa anedota acontecendo com o Nenê.
Os azuizinhos de 70 chegando pra fiscalizar aquele jipe
pifado.
Ligando pros superiores, dizendo que o cara do jipe era
quase que inabordável.
Por quê? Só pro senhor
ter uma noção, quem tá empurrando o jipe dele são os The Platters!
***
Esse cara é o Nenê.
sábado, 6 de julho de 2013
sexta-feira, 5 de julho de 2013
TE MANDO UM BEIJO
Te mando um beijo pelo ar
A viajar pra te encontrar
[numa esquina qualquer
Te jogo um beijo
Como quem joga uma flor
Tão incerto quanto irresistível
E ao chegar na casa tua
Ele, o beijo, toca tua pele nua
E descansa, o beijo, nas entrelinhas de tua saudade
Como se não houvesse dia
Como se não houvesse humanidade.
terça-feira, 2 de julho de 2013
AJUSTANDO A MANHÃ
Dia frio
Um qualquer
Ajustando a manhã
Mostra o sol
Eu girando vou te ver
Pelo céu a brilhar
Como aqui, na manhã,
Basta à luz
Teu sorriso aparecer...
Quando for, então,
Se deitar este sol
Madrugada vai buscar
O que ficou, riso teu
Em canção, um poema no silêncio
O teu rosto se repete
O sol se repete
Dia frio
Um qualquer
Ajustando
A manhã...
Um qualquer
Ajustando a manhã
Mostra o sol
Eu girando vou te ver
Pelo céu a brilhar
Como aqui, na manhã,
Basta à luz
Teu sorriso aparecer...
Quando for, então,
Se deitar este sol
Madrugada vai buscar
O que ficou, riso teu
Em canção, um poema no silêncio
O teu rosto se repete
O sol se repete
Dia frio
Um qualquer
Ajustando
A manhã...
SALA DE JANTAR
Uma cena
Obscena
Obtusa, uma confusa sala de jantar
[ela trocou identidade por desejo
Ele queria sempre mais...
Até que um dia
[ao voar sobre o trigal
O que era eterno fez-se claro
Como a lua de cristal
Um passeio, talvez um breve reencontro
Algo que pode significar...
Outra esfera, outra resposta
[oblíqua
Voando no tempo como voo agora
[sobre este trigal
Um campo tão vasto
Pão ainda pasto
A dançar pelo vento que trago pelo voo
A carne tão passageira
Uma verdade de ninguém...
Abro a porta
Obscena cena
[sala de jantar
Ele mostrou a identidade por desejo
Ela apenas lhe sorriu
E, como o velho sonho, de outro sonho partido,
Também partiu...
Obscena
Obtusa, uma confusa sala de jantar
[ela trocou identidade por desejo
Ele queria sempre mais...
Até que um dia
[ao voar sobre o trigal
O que era eterno fez-se claro
Como a lua de cristal
Um passeio, talvez um breve reencontro
Algo que pode significar...
Outra esfera, outra resposta
[oblíqua
Voando no tempo como voo agora
[sobre este trigal
Um campo tão vasto
Pão ainda pasto
A dançar pelo vento que trago pelo voo
A carne tão passageira
Uma verdade de ninguém...
Abro a porta
Obscena cena
[sala de jantar
Ele mostrou a identidade por desejo
Ela apenas lhe sorriu
E, como o velho sonho, de outro sonho partido,
Também partiu...
domingo, 30 de junho de 2013
CINE-EU
O Dico e o Nando me falaram que, quando eles eram pequenos,
nos remotos idos da TV em preto e branco, havia um macete (da série Truques
& macetes) de sobrepor à tela um pedaço de papel celofane colorido (as TVs
mais modernas já vinham, inclusive, com pequenos e especiais ganchos para
prender o papel celofane, pode?). Então, magicamente, a imagem se tornava
colorida...
O papel celofane, além de colorir os filmes do Batmasterson
e os jogos do Pelé, era o anúncio de que a tecnologia estava a galopar a passos
largos rumo aos dias de hoje...
[se é que alguma vez a tecnologia não tenha cavalgado a
passos largos.
A tecnologia não desmonta o cavalo...
A tecnologia está condenada ao cavalo, assim como São Jorge!
***
Pai do Alex jogou toda pipoca pro alto da primeira vez que
sofreu um ataque bombástico dos avatares de sua nova TV 3D.
***
O Alexandre quer comprar uma TV que faz até cafezinho e
fecha palheiros como ninguém. Que tem o controle remoto que acompanha o olho do
espectador; que acompanha até os pensamentos do espectador, com wi-fi conectado
no sofá. Ele quer uma TV que diga as notícias antes dos fatos, que o resultado
do jogo apareça antes do sorteio da tabela e que pegue internet, óbvio... e que
loucura deve ser o encontro da TV com a internet!!!
***
A TV, pra mim, foi o invento mais sedutor (e poderoso) da
humanidade. Aí alguns vão dizer: e a roda? E o fogo? Ora... a roda serve pra
nos levar mais rápido pra frente da TV e o fogo serve pra climatizar o ambiente
antes do jogaço das 9.
***
Agora, como surgem novas tecnologias, eu também tô pensando
em inventar uma TV. Mas não uma TV qualquer (daquelas com botão girador de 12
canais e antena de mosquito), eu tô a fim de inventar uma TV inédita, que seria
a sensação do momento... seria tão tentadora quanto irresistível... o ápice da
raça humana... o sonho de consumo de toda família moderna... só que eu ainda tô
pensando que irresistibilidade seria essa... onde é que eu pego essa tal
humanidade?
***
Eu pensei em criar uma TV que mostrasse ao espectador um
filme sobre si mesmo... que revelasse seu passado e, como no mesmerismo e na
psicanálise, o catapultasse pra uma análise única e exclusiva de sua
personalidade, tão profunda e intensa, tão reveladora, que depois de assistir
ao seu filme nunca mais a pessoa seria a mesma... Ela teria consciência de seus
traumas, vícios e virtudes... seria uma superpessoa! Ela entenderia seus
defeitos e limitações e sacaria (em uma só sessão do Cine-eu, é... Cine-eu...
esse aí é o nome do programa das 10), de imediato, sacaria, todo caminho de sua
vida ante a luz nem tão retilínea do que chamamos destino...
O espectador sairia da sala com cara de zumbi... a mulher
assustada na cama... que cara é essa? Que foi que aconteceu homem-de-deus?
Fala-homem! E eu sei de tudo seria
uma resposta recorrente; eu diria que recorrentemente avassaladora.
***
Eu vou falar com o Helio di Pinho pra gente patentear esta
TV.
O meu único receio é de que ninguém queira conhecer a si
mesmo e prefira seguir utilizando falsas máscaras... falsos artifícios.
Como um papel celofane na frente do televisor.
E prefira ficar sempre com novas ilusões de velhos canais...
[violentas e fictícias programações que não permitem
desgrudarmos desta (magnífica) caixa pandorística...
Pois entrar dentro da TV é bem mais simples que entrar
dentro de si mesmo...
E a novela é bem mais interessante
[que a vida aqui do lado de fora da tela.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
POEMA PEDRA
Cest le concrete poeme
Concreto e armado
Com 4 pés no chão
Como um gato
[e cai ereto
Um contemporâneo
Jovem que talvez não se finde hoje
[nem amanhã
Aqui, neste papel tão branco
Cheio de esperança
[que o poema nasça
Em sua papelidez...
Um poema na areia
Estático, sintático e opaco
Saindo de sua (confortável) esfera abstrata
Que o conduzia até então
Por ondas azuis...
Um poema que vira pedra
Silencioso e vivo
A vidraça estilhaçada
Os cacos no chão por um poema jogado
[tão gratuitamente jogado
Que restou vago,
Como se não tivesse sido.
Concreto e armado
Com 4 pés no chão
Como um gato
[e cai ereto
Um contemporâneo
Jovem que talvez não se finde hoje
[nem amanhã
Aqui, neste papel tão branco
Cheio de esperança
[que o poema nasça
Em sua papelidez...
Um poema na areia
Estático, sintático e opaco
Saindo de sua (confortável) esfera abstrata
Que o conduzia até então
Por ondas azuis...
Um poema que vira pedra
Silencioso e vivo
A vidraça estilhaçada
Os cacos no chão por um poema jogado
[tão gratuitamente jogado
Que restou vago,
Como se não tivesse sido.
TERRA: QUEM POSSUI A ESCRITURA?
Um colono judeu se retira com a família lentamente do assentamento em Homesh. Deixa uma vida para trás... olha tudo o que construíra sobre os ombros pela impossibilidade racial de sua ali presença. No outro lado do mundo, um mexicano é morto ao tentar cruzar o muro de 3.140 km na divisa com os EUA... No mesmo instante, no Brasil, uma outra muralha é levantada sob a Ponte da Amizade para separar as economias tupiniquim e paraguaia. No Golfo, xiitas iraquianos preparam uma emboscada letal para crianças sunitas, enquanto que em Berlim, um neonazista espanca um negro na calçada, onde antes ficava a muralha que dividia os olhares do ocidente e oriente.
É manhã no Laranjal. Um Jorge Drexler toca enquanto olho a chuva na janela. Tudo parece estar esperando a água parar... Mas a Terra segue girando na grande janela das dimensões, filha do tempo... E em sua linda pele verde-azul, todos os seres convivem. Penso nos grandes predadores, nas sagas das espécies, na cadeia alimentar como representação da harmônica relação dos animais, que respiram a contemplação de sua curta e finita existência almejando nada mais que um bom ninho, um parceiro da procria e uma comida satisfatória, já que a gula e a angústia não cobiçam os “irracionais”. Eles não desejam mais do que precisam, não destroem a mata que lhes dá abrigo e ar nem poluem a água que bebem. Alguns estipulam fronteiras, sim, mas baseados apenas no instinto de proteção de seus aspirais genéticos, ao contrário da racionalidade do homem, o único ser vivo que produz lixo e delimita espaços com sua vil noção de “propriedade” e raça.
Proudhon dizia que “a propriedade é um roubo” e, de dentro do contexto social desta afirmação há, contido, um significado cosmológico também. A Terra não pertence ao homem. O mundo não foi “feito” para que tirássemos o máximo de proveito dele, com um desespero consumista e um desrespeito generalizado com o milagre da vida, com as gerações vindouras, com as espécies que por todo globo se espalham, cada qual com sua beleza-viva. O planeta não é da burguesia, mas também não é da prole. Não é dos chineses nem dos hindus. Deus não é americano nem islâmico nem judeu. Deus é uma flor, um rio, um sorriso e todas as manifestações de amor e de solidariedade. É os milagres que acontecem nas entrelinhas de nossa mecânica e opaca percepção... milagres são naturais, ora bolas. Eles acontecem sim... a própria água limpa que tomo agora não me veio da torneira, como dizem. Veio do sangue da Terra, da vontade dos ventos, do mágico céu que não suporta gotas e onde voam os aviões. E enquanto agora um botão de flor se abre, cientistas aperfeiçoam a bomba H.
O que falta então ao homem para alcançar um convívio de paz? Como alcançar uma vivência harmônica, não-violenta, onde o homem perceba que as fronteiras fazem parte apenas de seu imaginário? Como correlacionar o meu direito ao direito do outro sem haver agressão? Talvez a simples resposta esteja dentro de cada indivíduo, pois cada um pode fazer a parcela que julgar necessária sem cobrar de seus espelhos-irmãos. A cada um cabe derrubar os muros do preconceito e da intolerância que traz na alma.
***
Penso, então, no que é de fato uma revolução.
Toda revolução vem de dentro...
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