quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A PIOR MENDICÂNCIA


Eu cursei Direito até o 5º ano na UFPel.
Faltava 1 pra eu me tornar um bacharel, mas desisti enquanto havia tempo.
Não consegui me imaginar de relógio, vivendo de reclamatórias e frequentando fóruns cheios de playmobils de terno e gravata.

***

Na faculdade vi um monte de absurdo humano que daria pra fazer um livro.
Por fim, eu só não consegui concluir se foi o Direito que se livrou de mim ou se fui eu que me livrei dele!

***

Um dia, numa aula de Direito do Trabalho, o professor entrou, sentou-se com soberba e falou pra turma, embora parecesse que falasse pra mim:
Vocês têm que ganhar dinheiro!!! Vocês têm que encher o bolso de dinheiro! Eu sei que aqui tem gente que só quer poesia... Poesia não enche barriga... vão comer poesia? Vocês têm é que ficar ricos!

Eu aproveitei a deixa, me levantei, saí do prédio e joguei meus livros e cadernos na primeira lixeira que encontrei, ainda na rua Anchieta, e nunca mais voltei. Nos outros livros que eu tinha, fiz textos relatando o que sentia e doei-os pra biblioteca da faculdade, na vil esperança de mudar alguns cabeça-de-jaca que fediam lá por dentro.
[Ou era eu quem fedia? Não sei!

O fato é que eu nunca soube se o professor otário merecia um soco ou um beijo.

***

Lembrei nisso porque hoje estou sem relógio de pulso e com o bolso cheio de poemas.
O Direito me ensinou a argumentar e a jogar sinuca.
E a vida segue, amor e dor, poemas e moedas...
E descobri que a pior miséria não é comer poemas...
A pior mendicância são o amor implorado e a alegria comprada!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SCHUMANN NA CHUVA


Existe uma espécie de frequência elétrica entre o solo e a ionosfera que se reproduz em todo e qualquer ser vivo habitante da Terra. Pesquisada por Winfried Otto Schumann, estes picos no espectro eletromagnético do planeta atingem a banda de frequência extremamente baixa, e seu nível vibracional constante fica na casa dos 7,83Hz.

***

Não tem escolha: essa onda todo mundo pega!

***

Do solo ao céu.
Na mente humana.
Na flor que abre.
No gato da vizinha.
Na velha da cadeira de balanço tricotando.
No funcionário público, enfim... tudo que (ainda) tem vida é um espelho schummaniano.

***

7,83!

***

Astronautas que eram mantidos fora desta vibração eletromagnética adoeciam.
Eram então submetidos a uma câmara que igualava a ressonância Schumann e voltavam ao normal.
Algo parecido com o que acontece com os maridos de plantão: um pulo no bar e a vida muda!

***

O fato é que variações últimas demonstram que a ressonância Schumann está mudando, acelerando.
De 7,8 pra 11Hz, depois pra 13Hz. E isto coincidentemente com adventos climáticos, vulcânicos e maremáticos (maremáticos é ótimo!), com o ápice do homo tecnologicus e com o caos do convívio social, guerras por todo mundo e desregulação atômica dos relógios de pulso.
Ontem hoje, hoje amanhã.

***

Mas eu lembrei do velho Schumann porque minha mente anda tri atucanada com este cotidiano maluco.
Mas hoje baixou uma grande chuva em Porto Alegre e eu fiquei observando, pensando no ritmo das coisas.
No tempo certo.
E concluí que não existe o tempo certo ou errado.
Não existe nada, nada, que não esteja no seu momento de acontecer.
Na verdade, todo tempo é mental.
E mesmo que o mundo ronque em lavas e ondas gigantescas, deus estará em algum canto pensando em outras coisas obsoletas, tão fugazes como nosso pequenino planeta azul e nossa vida milimésima.

***

Tudo tem tamanho e tempo relativos.
O que é nossa existência fora de nossa cabeça?

domingo, 23 de outubro de 2011

O CONTRÁRIO DO AMOR


Eu estava num ônibus em Alto Paraíso de Goiás e um cara estranho se virou, falando comigo. Era espanhol, um phD em Sociologia. Falávamos de coisas comuns à beleza do lugar, àquela estadia momentânea no paraíso, e num momento ele me questionou sobre o antônimo do amor.
Uma pequena palavra, de 4 letras e que terminava em O.
Eu sempre aprendi que o contrário do amor era o ódio.
E naquele momento, quase aos 30, reaprendi algo de muita significância.
Porque a gente tá sempre aprendendo.
Até a hora da morte estamos aprendendo...
Na verdade, cada aprendizado é uma morte pro que éramos.
E eu morro umas 20 vezes por dia...

***

O amor é um sentimento inato, ou seja, ele é da origem do ser.
Não o amor de que falam as músicas sertanejas.
Nem o amor de telenovelas.
O amor é um sentimento puro, à mãe, ao pai, à vida, filhos, amigos, plantas... o amor é a essência que nos permite reconhecer o outro ser em nós.
E é por ser inato que não pode ter como contrário o ódio.
O ódio é um sentimeto construído.
É a soma de vários conceitos axiológicos e psicossociais.
O revanchismo, a inveja, a cobiça, a competição...
E é por isso que o contrário do amor é o medo.
E é por isso que onde não há medo, o amor e manifesta.

***

Quem tem amor não tem medo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

I-MUNDO PLANO


A educação no tempo do homem das cavernas devia ser um saco.
O aluno chegava na escola-caverna, a diretora batia a sineta de osso e o professor cabeludo ensinava, através de seus hieróglifos, o verdadeiro mundo uga-buga.
Próximo a isso, mas temporalmente distante, minha mãe, na década de 50, usava a lousa como principal instrumento escolar.
Pra quem desconhece, a lousa era um quadro pequeno onde o aluno escrevia a giz as lições e levava pra casa, onde chegavam muitas vezes já apagados, para o desespero da criança, que já sentia a palmatória futura na palma da mão presente.
Hoje, o mundo cheio de tablets e i-pads e etcéteras, recria o relacionamento do homem com o conhecimento. Uma lousa que não apaga... uma caixa de memórias do mundo... é o homem supra-evoluindo, até onde eu não sei, só que o passado está cada vez mais moderno.

***

Na Índia, tablets gratuitos pra rede escolar e a U$ 35 pra população em geral.
O mais barato do mundo.
Adeus aos cursos de datilografia, MS-DOS e correios.

***

Duda diz: Nega, pode me alcançar o café?
Nega diz: Aqui, meu amor.

***

Como o mundo cabe numa coisa tão pequena?
Acho que o mundo tá voltando a ser plano, como antes das navegações...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O MUNDO DE ESCHER


Maurits Cornelis Escher é um designer e artista que elaborou gravuras e pinturas representando construções impossíveis, onde planos se cruzavam explorando o infinito e criando padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes, ou seja, uma loucura, literalmente, sem pés nem cabeça.
Em seus quadros, repletos de ilusões de ótica, ele colocava na perpendicular vários planos dentro de um mesmo polígono, criando uma imagem paradoxal e complexa e inaugurando a Relatividade de Escher, onde um elemento pode ter várias significantes dentro do mesmo contexto.

***

Onde pra um é chão, pro outro é teto.
E as paredes também são concreto.
No buraco negro, a margem do espelho.
E as janelas são vitrôs e também passagens.

Louco mundo, mundo louco
O que dizer de ti.
Cada dia tão diferente
Da última vez que vi.

***

Vivemos diariamente a Relatividade de Escher.
Nossa sociedade é um quadro vivo escheriano.
Na verdade, muito limitado é falar "nossa sociedade".
Somos muitas sociedades dentro de uma só.
A visão que tem o pobre.
O olfato do nobre.
As mesas postas, as ruas iguais.
Mas enquanto um passa a pé, outro com carro blindado.
As grades altas e muros robustos da nossa cidade separam quem está dentro da festa.
Do singelo transeunte.
A cadeia negra.
O plenário branco.
As escolas cheias de ninguém.
Qual o valor que a vida tem?
Eu sou feliz.
Eu sou triste.
Neste mundo coexiste o todo, todo numa coisa só.
O foco que eu vejo é minha aura desenhada.
As coisas que percebo são um pouco de mim.
E eu sou muitos paralelos.
Perpendiculares...
E tudo aquilo que penso ao léu
No próximo instante já está
Com os pés pro céu.

sábado, 20 de agosto de 2011

ACELERADOR DE PRESENTE


O CERN é um centro de estudos científicos em Genebra que criou uma máquina maluca, chamada de Acelerador de Prótons (ou de Hádrons, como preferem alguns). Trata-se de um túnel onde átomos são movidos a uma extrema velocidade e ao chocarem-se, causam a explosão de seus núcleos (a parte realmente sólida da micromatéria). Ao explodirem, os núcleos liberam cargas positivas que, ao encontro dos elétrons, que estão à toa no nanocosmo, queimam-se, anulam-se, liberando energia.
Cientistas acreditam que esta é a origem do Big Bang e que aí, nessa suruba molecular, esteja concentrada uma energia inesgotável para a humanidade.

***

Tudo isso pra ver TV, passar e-mail e tomar banho quente até o fim dos tempos.

***

Eu me pergunto se dessa máquina aceleradora resultasse um outro Big Bang, onde isso iria parar? Me pergunto e tento responder-me: um novo sistema seria formado, com poeiras cósmicas se fundindo até formar os planetas. Planetas inabitáveis que levariam bilhões de anos para poderem ser hotel de seres vivos, dos microsseres marinhos aos símios de 5 dedos. Aí surgiria uma raça dominante, que criaria armas letais contra todas as outras... um sistema econômico de organização explorativa... um sistema mundial de comunicação...
Peraí, eu acho que isso já aconteceu! Já aconteceu sim, caraca, e foi com a gente, os humanos, o planeta Terra, o Sistema Solar... Muito prazer!
Então pra quê tudo de novo?

***

O infinito é muito (pouco) tempo
Larga tudo e vem pra tarde
Onde a grama é chamativa, a imagem da praia...
Onde o filho faz carinho e a gente brinca de responsabilidades
Aqui já é o presente que eu queria
E tem gente trabalhando pensando numa nova humanidade
O novo é dentro
O novo existe, esperando para ser descoberto
Como a roda e como o fogo

[todos os caminhos retornam à origem...

domingo, 14 de agosto de 2011

PAPAIZ


Quando eu tinha 14 anos perdi meu pai.
Ele saiu do mundo real para entrar no exclusivo mundo de minha mente.
Assim, o vejo todo dia.
Sinto sua presença.
Observo seus ensinamentos.
Tive dois filhos, porque a engrenagem não pode parar.
Vejo no espelho meus cabelos brancos surgindo, aos poucos.
Observo amigos que, como eu, adentram nesta aventura de ter filhos.
O mundo é mágico.
Nunca triste.
Ao ver a figura de um filho sorrindo.
Te abraçando.
Um simples "eu te amo" é motivo suficiente para se saber que no fundo de tudo
Há uma máquina chamada amor.
Que move montanhas.
Que move singelas folhas.
Numa tarde de outono na praça.
Numa escola qualquer.
Ver um filho crescer é ver a si próprio.
A meu pai.
Meus avôs... toda carga genética que me comprova.
A cada minuto que vale a pena devolver amor ao mundo.
Melhor que ser filho é ser pai.
E agradeço agora, em breves instantes.
A João Keiber, ao Jojô e ao Pedro Bem.
Vocês fazem eu me sentir eterno.
E feliz dia dos pais a todos os testículos do mundo!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEUS NO FACEBOOK


O mundo anda pra frente, não tem jeito. Os adventos da tecnologia são fatores inevitáveis... as trilhas do mundo estão na internet, na tecnologia geométrica.
Tudo o que se pode saber se pergunta ao Oráculo Google, onipresente em cada casa, cada escritório. Onisciente de todos os assuntos.
Não há mais nenhuma informação da humanidade que não esteja dentro de um computador.

***

A internet é a verdadeira caixa de Pandora.
Rasgou-se a noosfera.
Todos os conhecimentos do homem estão à solta, por aí.
E o homem transformou o seu posicionamento ante as informações.
Antes, uma notícia dependia de carta...
De rádio...
De jornal...
[os jornais, cada dia mais antigos...

A notícia agora é imediata...
Parece até que o mundo de hoje aconteceu ontem!

***

Eu lembro do tempo em que os encontros se davam nas esquinas.
Hoje as esquinas é o Facebook.
Cada dia, uma nova turma.
Informações e novidades imediatas.
A piada da hora!!!
Atuais programações de cultura.
Com duas deficiências apenas, as redes sociais em relação às esquinas de verdade:
No Facebook não se pode falar alto.
Nem cuspir no chão.

***

Então Deus, querendo saber sobre a Era Tecnológica na Terra, chamou o São Pedro e solicitou averiguações.
São Pedro disse que se tratava do tal do Facebook.
Facebook?
É, Facebook. É uma espécie de onipresença que os homens criaram.
Mas a onipresença é uma exclusividade minha, respondeu divinamente o Senhor.
Mas o Senhor não tem uma conta do Face, tem?
Não, não tenho!
Pois então o Senhor vai ficar por fora!

***

Deus criou sua conta no Facebook.
Teve que criar um usuário com underline, porque deus@gmail.com já tinha domínio.
Foi anexando fotos.
Criando amizades.
Lançando histórias homéricas sobre sua biografia deísta.
Jogando cantadas certeiras pois, claro, Ele fez a mulher.
Ele sabe melhor que ninguém o que elas gostam de ouvir.
E ele foi curtindo os tópicos dos outros.
Comentando com uma sabedoria incrível.
Até que um cara, na rede, disse que Ele era fajuto... que não era Deus coisíssima nenhuma. (5 pessoas curtiram seu comentário)
Sou sim!
então prova!
não preciso provar nada, babaca.
vc tem menos seguidores do que eu! como pode ser deus? (13 pessoas curtiram seu comentário)
vou mandar um raio na tua casa pra tu ver! (Thor curtiu seu comentário)
ahhh... vai cagá!
melhor... pra te provar que sou o verdadeiro deus, vou boicotar a internet no mundo todo!!! (Diabo e Hug Chávez curtiram seu comentário)

***

Mas é claro que Deus estava blefando.
Ele não terminaria com a internet jamais.
Deus não vive mais sem redes sociais.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

TETA VITRUVIANA


Dizem que a simetria representa a perfeição harmônica, a materialidade requintada, a face divinal. Isso foi defendido pelo arquiteto romano Marco Vitruvio Polião, quando escreveu Os dez mandamentos da arquitetura, no século I a.C. Suas teorias se eternizaram quando Leonardo Da Vinci estudou as proporções e desenhou o conhecidíssimo Homem Vitruviano, o modelo de corpo perfeito, capaz de enfeitiçar tanto mentes brilhantes da matemática e arquitetura quanto moçoilas de academias.
É que ele está baseado no número phi, um conceito fantástico de proporções e padrões numéricos... a representação de deus em dígitos... a chamada proporção áurea, o 1,618.

***

1 + 2 = 3
2 + 3 = 5
3 + 5 = 8
5 + 8 = 13
8 + 13 = 21(...)

E assim sucessivamente.
E eu ficando louco de tanto somar e dividir.

***

E eu lembrei da mulher que tinha um mamilo a mais, uma terceira teta.
E o mais maluco de tudo é que a terceira teta ficava no pé esquerdo.
No pé esquerdo, perto do calcanhar.
Isso sim é que eu chamo de assimetria.
Uma teta no pé!
Pode?
E dizem que quando ela ficou grávida, a teta do pé inchou.
Que loucura!
Eu imaginei ela amamentando o bebê com o garrão.
Sentada no sofá, com pé dentro do bercinho, na cara da pobre criança.
Dorme dorme, meu benzinho...
Quanta facilidade!

***

O pior da brincadeira ainda não falei.
No caso da mulher com a teta no pé.
Complicado ia ser pro maridão.
Que na hora do romance, alta sensualidade e excitação.
Beijos quentes. Mãos atrevidas.
E aquele terceiro seio sedutor, com perfume de talco Desopé.
O bico durinho por baixo da meia.
Uau!!!
Amor... apaga a luz, tira meu All Star e me beija!

***

Teta no pé?
Por essa Da Vinci não esperava.
Com certeza essa mulher tem um amante pedicure.

SKINNER E O EREMITA


Uma americana tinha 6 filhos.
6!
Mas mesmo assim, descontente, fez tratamento de fertilização para ter o 7º.
Só que o tratamento deu muito errado (ou será que deu muito certo?) e ela engravidou de óctuplos.
ÓCTUPLOS.
E se eu ainda to bom de matemática, 6 + 8 = 14.
14!
Sete vezes mais filhos do que tetas.
Isso não é nada bom...

***

Um ano depois da cesária histórica, uma reportagem midiática foi fazer uma visita ao ninho da mulher mãe de 14.
Ela disse que se tranca no banheiro pra chorar sozinha.
E que os 6 primeiros filhos (antes da leva de 8) estão abandonados, criados como bichos.
Comida no pote!
Cama no chão!
Aí eu fiquei pensando nos meus 2 guris! Barbada!
E eu achava difícil, veja só...
Agora posso ter mais uns 5 e ainda to tranquilaço da silva!

***

Dizem que em vez de roupa, ela compra jogo de uniforme futebolístico pras crianças.
11 titulares + 3 reservas.
Cada qual com seu número nas costas.
11!? Já almoçaste?
Caminha pra dentro, número 8!
Número 3... larga essa porcaria aí.
5!!! Eu já não te falei pra não colocar caneta na boca? Ou eu falei pro 6?
Minhanossa!
Essa mulher, sem dúvida, tem o melhor banheiro do mundo!

***

Os filhos que mais me enchem o saco são os que eu ainda não tive!

***

Aí eu lembrei do conto do eremita que morava na caverna.
Os ratos começaram a comer suas roupas.
Ele foi ao vilarejo e lhe deram um gato para espantar os ratos, já que roupa toda hora é coisa de madame.
O gato espantou os ratos, mas sofria de fome.
Pobrezinho do bichano.
Recorrendo à vila, deram uma vaca ao eremita.
Ela daria leite ao gato e a ele também.
Barbada?
Barbada nada: a vaca começou a emagrecer também.
Os moradores ajudaram o eremita e lhe fizeram uma área de pasto e uma horta, bem pertinho da caverna.
Mas pra manter aquilo era uma perrenha.
Tirar inço, cortar grama, combater as pragas.
Ele sozinho não dava conta.
Então na vila pintou uma jovem viúva.
Eles a mandaram pra fazer companhia pro eremita e lhe ajudar a manter a horta e o pasto limpos.
Mas a noite chega, vocês sabem como é.
Cama grande.
Sem TV.
Eremita sozinho há muito tempo.
E a viuvinha até que não era feia.
Em 3 anos, tinham 5 filhos.
3 belos eremitazinhos.
2 pequeninas viuvinhazinhas.
E o eremita não lembrava mais a última vez que tinha meditado.
A vaca morreu.
O gato sumiu.
E os ratos seguiram o baile.
Virando lixo.
Comendo lama.
Fazendo revoluções.

***

E eu me pergunto quais os genes diferem certos homens das ratazanas.

***

Burrhus Frederic Skinner, que de burro não tinha nada, foi pioneiro na psicologia experimental, estudava os homens e os ratos e não viu nenhuma diferença entre eles.
“Os ratos são seres simples, só isso; o homem é ligeiramente mais complicado.
O homem é uma máquina extremamente sofisticada, os ratos são máquinas simples.
É mais fácil estudar os ratos”.

É por isso que os psicólogos continuam estudando os ratos.
Estudam os ratos e chegam a conclusões a respeito dos homens.
[e as conclusões a que chegam estão sempre certas.

***

Esse papo todo me deu uma vontade de comer um queijo...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

NEM A MIM


Todas as coisas que tive me ensinaram algo.
Elas sumiam, outras as sucediam.
Até também sumir para o advento do novo.
Sempre novo.
E todas elas, e cada qual, com o seu ensinamento próprio.
Percebi então que não é atrás das coisas que vivemos:
É atrás dos ensinamentos que elas nos proporcionam.

***

Eu já tive um celular tijolo, um boneco do He-man. Já tive 3 Fuscas diferentes, já tive um primeiro violão.
Eu já tive camisetas de caveiras desenhadas, coturnos de quartel.
Foram meus diversos livros, discos que nem lembro mais.
Emprestei pra quem não lembro a mais importante revista, o mais confortável chapéu.
E me pertenceram também tantas verdades que por ora não me cabem mais.
E a cada minuto sou outro... e é impossível não ser assim.
Perco tudo, pois sou vivo e tenho muito pouco.
Nem a mim.
Nem a mim.

sábado, 16 de julho de 2011

O HOMEM PEGA DE GALHO


O Nelson me contou uma história sobre um acidente espetacular.
Não que eu goste de sangue e tragédia, esse papo que o Renato Machado e os telejornais adoram, mas é que esse foi um acidente interessantíssimo. É que após uma colisão frontal de veículos, o cara foi arremessado pra fora do carro e bateu a cabeça no meio-fio.
Na hora, o tampão da cuca abriu e o cérebro do sujeito voou para a calçada.
Até aí tudo bem, isso acontece realmente.
É que o cara, sem cérebro, levantou e falou o nome de uma mulher.
Como pode?
O cara sem cérebro se mover e falar?
O Nelson jura e até briga com quem diz que ele tá inventando.

***

Eu acho que o cara disse:
Puta la madre, agora sim! Eu sabia que tinha uma coisa me incomodando, me pesando na cabeça... era essa merda aí! Tô livre! Liiiiivre!


***

O corpo é um veículo dotado de energia vital.
Ela não é nossa.
É um empréstimo.
Ela, a energia vital, está em tudo que é vivo.
Plantas e animais.
Ela surge, atinge o máximo potencial de desenvolvimento, decresce e some.
Volta a circular na biosfera, procurando outros nascentes pra se manifestar.
E é por isso que todos os seres nascem, crescem, envelhecem e morrem.
[e ainda nos achamos importantes, os humanos

Mas ela, a energia vital, não nos pertence.
Ela, sem dúvidas, passará.
E nós, inevitavelmente, teremos de morrer.

***

Eu conheci um cara que perdeu o dedo.
Rapidamente, ele pegou o cutuco do dedo e plantou num pote com humus e terra.
O dedo brotou.
Outros dedos brotaram.
Uma mão, um braço.
Depois um tronco, uma cabeça, pernas e pés.
Tudo regado com carinho, cuidado como se fosse uma planta.
Uma planta-homem.
[ou seria um homem-planta?

O homem pega de galho!, concluiu ele, meu amigo.
Que teve sua duplicidade genética saída do quintal da casa.
Um outro ele.
Chato, morrinha, maleducado!
Porque a energia vital é incrível.
Mas as manias do homem são um saco.

terça-feira, 5 de julho de 2011

OS 5 ANOS DO JOHAN


Hoje o Johan faz 5 anos e eu não fui trabalhar.
Ter filhos é a oportunidade de devolvermos amor ao mundo.
Meus guris me re-ensinaram de verdade o que significam pra mim meu pai e minha mãe.
Até parece que foi ontem que eu tinha 5 anos...
Agora é o Jojô.
O passado nunca sabe a hora de parar.
O passado está sempre acontecendo...

***

Johan, te amo como se tu fosses tu mesmo.

domingo, 3 de julho de 2011

IVAN PIRES, O DRÁCULA LATINO


Dizem as lendas que numas ruínas dentro da mata, na colônia de Pelotas, mora um vampiro. Ivan Pires, o Drácula latino. Ele não voa nem se transforma em morcego... não se teletransporta: anda de brasília velha.
Não pode se dar ao luxo de dormir em um caixão estilizado. O lugar quentinho onde ele descansa a cuca é um colchão de solteiro no chão. E o chão é de um quarto,
[de uma casa em ruínas, como eu já bem disse

não de um castelo, como o seu parente da Transilvânia, que por sinal passa os dias inteiros dormindo, outro luxo que Ivan Pires não pode desfrutar.
Ele trabalha de dia e de noite sofre com aquela insônia intensa. De madrugada, sente tesão e fome, sente vontade de morder um pescoço novo por aí. Desperto, salta da cama e toma outro ansiolítico... meia drágea pra dormir. Negligenciando seus hábitos noturnos, o Drácula latino tem que deitar cedo.
Ele nunca mordeu alguém famoso... Mas uma vez ficou a uns 20 metros da Xuxa.
Ele paga pensão pra dois vampirinhos de mães diferentes... Ele passa diariamente por diversas situações do cotidiano comum de um pelotense.

***

Mas esses dias, algo provocou a fúria de Ivan Pires.
8h da manhã.
Ele indo de brasília velha pro trabalho, caiu numa blitz.
Documentos atrasados...
Ivan Pires atrasado...
Mas caralho, uma blitz 8h da manhã?
Pensou consigo nosso vampiro.
Vagabundo não tá no trânsito 8h da manhã.
Às 8h da manhã quem tá no corre é trabalhador, seu policial.
Não adiantou o argumento.
O trabalhador é aquele que dá um jeito em pagar as multas.
Em mover a máquina.
Em alimentar o monstro dos tributos.
E Ivan Pires sentiu na própria pele.
Pela primeira vez em seus mil e poucos anos.
Como é ser vítima de um vampiro de verdade.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

SOZINHO NA MULTIDÃO


O coração é a coisa mais perigosa do mundo.
Toda cultura, toda civilização e toda pretensa religião separam a criança do seu coração.
Ele é uma coisa muito perigosa.
Tudo o que é perigoso vem do coração.
A mente é mais segura, e com a mente você sabe onde está.
Com o coração, ninguém sabe onde está.
Com a mente, tudo é calculado, mapeado, medido.
E você pode sentir a multidão sempre com você, à sua frente e atrás de você.
Muitos estão se movendo nela; é uma auto-estrada — concreta, sólida e que lhe dá uma sensação de segurança.
Com o coração, você está só, ninguém está com você.
O medo o pega, o possui, toma conta de você.
Para onde você está indo?
Agora você não sabe mais, porque quando você se move numa estrada com a multidão, você sabe onde vai porque pensa que a multidão sabe.
E todos estão na mesma posição; todos pensam: "Tanta gente andando, devem estar indo a algum lugar; de outro modo, porque tanta gente, milhões de pessoas se movendo? Devem estar se dirigindo a algum lugar".
Todos pensam assim.
Na verdade, a multidão não vai a lugar algum.
Jamais alguma multidão chegou a meta alguma; a multidão continua a caminhar.
Você nasce e se torna parte dela, e a multidão já estava caminhando antes de você nascer.
E chega um dia em que você acaba, você morre, e a multidão continua a caminhar, porque sempre há gente nova nascendo.
A multidão nunca chega a lugar algum — mas ela dá uma sensação de conforto.
Você se sente aconchegado, rodeado de tantas pessoas mais sábias, mais velhas e mais experientes que você; elas devem saber para onde estão caminhando — e você se sente seguro. (...)


Osho

***

A festa estava tão cheia.
A pista tão lotada de dançantes.
Que o seu Bruno teve um infarto fulminante.
E morreu no meio da música.
Morreu, mas não caiu.
Não caiu porque a massa em festa, apertada, não deixava que seu corpo fosse ao chão.
E assim foi, até o fim da folia.
Duas horas depois.
Todo mundo foi embora, só ficou o morto no meio salão.
Gelado.
120 minutos inerte.
Dançando a alegria dos outros.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

GRAVÓTICA


O voo é livre.
Mas a aterrissagem é obrigatória.

O MÃO-DE-VALSA


Quem nunca ouviu falar em "Pé-de-valsa"? O pé-de-valsa é o cara bom de baile... o bom dançarino. Quer dizer que quando o cara é uma fera no requebra, ele é um pé-de-valsa.
Até aí beleza.
Mas hoje eu fiquei sabendo que existe uma doença rara, popularmente chamada de "Mão-de-valsa", e o Bermudez conheceu um indivíduo em Jaguarão que tinha essa doença.

***

O nome dele eu não vou dizer, mas eu sei que ele era fulo com a tal doença. Claro, se uma anomalia que acontece em 1 entre 100 milhões de pessoas acontecer logo contigo, no mínimo tu vais ficar de cara.
O que acontece é que a tal doença deixava a mão com vontade própria. Isso mesmo, a mão fazia o que queria... Quase um ser autônomo preso na ponta do braço.
Não adiantava nem tentar dialogar: a mão fazia e acontecia, literalmente, e colocava seu dono em várias frias, por assim dizer.

***

Ele conversava com um amigo e, de repente, a mão-de-valsa tentava um tapa. O amigo desviava algumas vezes... mas em outras levava um bofete no meio da cara... Aí o amigo do Bermudez dizia: Não fui eu, foi a minha mão. Parece o programa do Chaves, mas o Berma jura que era verdade.

***

Ele passava pelo mendigo e a mão jogava a moeda por vontade própria.
Uma bunda redonda então... a mão-de-valsa não podia nem ver.
Petisco em festa de aniversário. Campeonato de par-ou-ímpar... A mão-de-valsa era super-social.
E quando a mão-autônoma exagerava,

[ela começou a roubar e a meter o dedo no rabo dos amigos num cutuco rápido e incisivo, vê se pode???

ele metia ela à força dentro do bolso da calça jeans e a mantia presa pro resto do dia.

***

Os amigos deixaram de convidá-lo pro futebol, porque a cada vez que os adversários cruzavam a bola na área, o mão-de-valsa fazia um pênalti.
No trânsito, fazia xingamentos exagerados a todos os motoristas... várias vezes deu briga.
Havia dias que ele tinha vontade de cortar a mão-boba fora...

***

E um dia, o amigo do Bermudez foi jogar na loteria.
Pensou em 6 dezenas, mas a mão-louca jogou em outras.
E ele ganhou.
E ganhou sozinho o prêmio acumulado.
E foi eternamente grato à mão.
Lhe presenteou com anéis, pares de luva...
As melhores manicures...
Os melhores massagistas...
Os mais caros cremes e cosméticos...
E a relação foi ficando cada dia mais linda que se enamoraram.
Ele e a mão.
A mão e ele.
O sexo entre eles era uma loucura.
E ela passou a ser comportada.
Quase submissa.
E fiel, o que era melhor de tudo.
Silenciosa, carinhosa...
Uma companheira sempre presente...
Que lhe escrevia belas cartas e poemas...
Lhe coçava o saco como ningué, fazia cafuné.
Então ele descobriu, definitivamente, que a alegria sempre estivera a seu alcance...
Ela sempre sabia do que ele precisava.
E ele parecia conhecê-la totalmente.
Como a palma de sua mão.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O PAULO RENATO MORREU DANÇANDO


Li no jornal que o ex-ministro da Educação, Paulo Renato, morreu. Mais: ele morreu dançando. Mais ainda: morreu dançando com uma mulher 30 anos mais jovem que ele, num spa de luxo. Dois pra lá, dois pra cá e caputs.
Então pensei: isso sim é que é morrer com estilo!
Graaaande Paulo Renato.

***

Melhor que isso só a morte do avô do Alexandre, que morreu bimbando num motel do interior do RS.
Dizem que a amante falou pra ele: Nooossssa vovô... eu nunca te senti tão duro!
Claro: ele tava morto!

***

Imagina... morrer no trânsito, baleado, carregando saco de batata no porto... Isso aí não tá com nada... isso aí é morte pra azarado. Eu quero é morrer como o Paulo Renato.

***

Eu quero é viver muito e morrer rápido.
Sem opções para ficar pensando.
Ou tu morre ou fica velho.
Eu quero é morrer dançando.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

EU E A MONGA


Muitas coisas vão acontecendo em nossa vida e, enquanto o tempo passa e a gente amadurece, vamos fazendo leituras que nos mostram o quanto estamos, agora, diferentes do que estávamos até pouco tempo atrás.
São os aprendizados, que nos tornam não melhores, nem piores, mas nos fazem ter um pouco mais de auto-conhecimento. E o auto-conhecimento, por sua vez, é o que permite ao indivíduo estar em paz interior... estar mais perto da verdade de seu coração.

***

O taxista conhecia meia São Paulo mas desconhecia a si mesmo.

***

E quem conhece a si mesmo?
A cada aprendizado, uma morte inevitável.
A gente morre pro que era, quando aprende alguma coisa.
E a cada conclusão, um novo e decadente muro se desenha.
Mas eu não temo a morte.
Ela é diária, desde o ponto onde se nasce.
E não há pra onde fugir.
Onde se esconder.
Mais cedo ou mais tarde, você vai ter que se conhecer.

***

Eu lembrei de quando eu tinha 13 anos.
Um parque de diversões.
Havia um brinquedo chamado Monga, a macaca assassina.
Era uma suposta mulher-macaco que botava todo mundo pra correr de dentro daquele trailer pequeno e grafitado.
Tipo King Kong.
Mas eu sabia que se tratava de um truque de espelho.
O Tiago Denardin já tinha me contado tudinho.
Que a macaca que saltava da jaula era um ator travestido.
Eu sabia que aquele terroroso esquete, na verdade, não tinha perigo algum.
Então entrei.
Pensei em ficar até o final, encarar o ator vestido de macaco nos olhos e dizer: Eu sei de tudo!
Tu não é a Monga porra nenhuma!
E puxar seus pelos do peito.
Rá!
Mas a jaula tremeu.
Tudo aconteceu.
A mulher virou macaco, como eu já previa.
O que eu não previa é que eu iria entrar no cagaço geral.
Que eu iria tremer de medo e sair daquele moquifo escuro correndo com todo mundo.
Correndo e gritando, fugindo daquela besta-fera urrante.
E foi o que eu fiz.
Correr e gritar.
E naquele momento não adiantava nada eu saber de toda verdade sobre o truque dos espelhos.
Porque na hora do susto, enquanto eu corro minha mãe tem filho vivo.

***

Porque o que somos muda a toda hora.
O importante é conhecermos nosso próprio ser.
Visualizarmos por onde passa nosso trilho...
Pois até a Monga, que é a Monga, se transforma...

[e eu não sei o que eu faço agora com minhas certezas.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

AS MANIAS


Um amigo meu foi dar uma consulta advocatícia a um cliente desconhecido. Quando chegou na casa, foi recebido por um homem bem vestido que lhe perguntou o nome.
Depois, lhe perguntou o nome de seu bisavô. Depois, se ele, meu amigo, sabia que em Rio Grande tinha o Superporto. Tudo isso respondido prontamente pelo amigo advogado.
Passados breves segundos, o homem perguntou novamente sobre o bisavô e sobre o superporto. Até que entrou na sala outro homem, o verdadeiro cliente, que disse ao meu amigo:
Não dá bola pra ele não... hoje ele tá conversador.

Aí que meu amigo percebeu que tinha sido recebido por um esquizofrênico paranóico.

***

A grande sacada é que por breves minutos meu amigo entrou na loucura do esquizofrênico e conversou com ele até que o papo ficasse irreversivelmente estranho. Então, neste interím, por um lapso temporal delimitado, um deles era normalmente louco e o outro era loucamente normal.
E então eu pego a deixa e faço esta simples pergunta: O que é ser louco e o que é ser normal?

***

Quem não for louco que atire a primeira pedra.

***

Lembrei de várias manias minhas que, se analisadas pontualmente, todos vão me chamar de louco. Lembrei também das manias dos outros loucos normais que eu conheço... Cada louco com sua mania. O cara que cuspia no chão. O outro que beliscava a bunda e cheirava a mão. O outro que não podia com o barulho do chinelo arrastando. O outro que enlouquecia com plástico-bolha...
Minha nossa... o mundo é dos loucos.
Dos loucos, o mundo.
Mundo louco.
Locoloco.
Mundo.