sábado, 25 de setembro de 2010

UM CAMELÓDROMO E DUAS ESCRAVIDÕES


Foi levado à forca o preto Belizário, que vibrou grande número de punhaladas ao senhor e sua senhora, deixando caídos como mortos (...) julgado criminoso, Belizário foi condenado a morte. Sua execução teve lugar à esquerda da antiga ponte de madeira, hoje de cimento armado, a rua Riachuelo, além do Arroio Santa Bárbara, onde existe atualmente uma barraca de couro, local onde foi levantado a forca. (...) Para assistir ao horrível ato, o povo, ávido de curiosidade, em todo o trajeto desde a cadeia até esse local, seguia o condenado, formando volumoso séquito, sob a cadência lúgubre do cerimonial, assim o acompanhando até seu último instante de vida, indo ele vestido da fatal túnica alva dos enforcados.

BENTO, Cláudio Moreira. O negro e o desenvolvimento na sociedade do RS (1635-1875). PoA: Grafosul/IEL/DAC/SEC – 1981, p 203-4.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO


A última porta era a saída
De fora pra dentro, a entrada
Lá fora, o mundo muito vasto
Lá dentro, quase nada

No olhar do estrangeiro
A grama retiniza o verde
E o olhar
[o primeiro olhar

Daquele verão
Esqueceu outonos
E foi pra sempre
[até o fim, pra sempre.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

MARIDO DE ALUGUEL


Ouvi dizer que existe um emprego novo no pedaço: o marido de aluguel. É simples, você (mulher ou homem(?)) pega o telefone do indivíduo nos classificados (quiçá em breve nas páginas amarelas do guia telefônico mais próximo, se é que ainda existirão guias telefônicos) e o chama para aqueles afazeres que só o maridão que você nunca teve poderia realizar.
Já dá pra ver os anúncios.
O ralo entupiu? Disque-marido. 0800...
Trocar o gás? Tem ladrão no pátio? A senhora está precisando trocar um pneu? Chame o Marido de aluguel...
Massa... o marketing ia ser uma barbada.

***

Foi aqui que chamaram o marido de aluguel?
Foi sim.
E qual o seu problema, senhora?
O senhor faz sexo?
Hum... infelizmente não, minha senhora. Pra sexo a senhora tem que ligar pro namorado de aluguel. Marido não faz sexo. A categoria marido é só pra serviços leves. E rango incluso no serviço, hein!?

***

Com licença!? O senhor vai ficar o dia todo deitado nesse sofá?
Por quê? Algum problema com isso?
Não, nenhum... é que quando eu liguei pro disque-marido, eu achava que...
Que alguém viria aqui e faria os trabalhos da casa, não é mesmo? Ah, minha senhora. Veja bem: a senhora contratou um marido de aluguel. Qual é a coisa que o marido faz de melhor? Não é deitar no sofá e ver TV? Pois então, a senhora fica tranqüila que eu sou um marido nato... eu sei o que to fazendo... Sou o melhor marido de aluguel do mercado... igual a mim, minha senhora, só mesmo um marido de verdade. E isso a senhora sabe bem o que significa, não sabe?

JANELA ABERTA


Meu blog e eu às vezes sumimos um do outro. É como uma crise profunda de relacionamento, onde um não atura mais a cara do outro e se precisa de um tempo... um tempo sem se ver para que dê saudade... um tempo para conseguir entender o quanto se precisa um do outro... se realmente se precisa...

***

Nietzsche diz que não amamos o outro, precisamente. Amamos aquilo que o outro pode nos dar. Quando ele não pode mais nos dar o que queremos, o amor transmuta. Então o amor, ou o sentimento que se aproxime mais dele, não vem de fora: vem de dentro. E é ele então uma manifestação sentimental egóica de interesses pessoais, finita, interdependente a um objetivo racional (consciente ou inconsciente).

***

Talvez o amor seja uma flor no bouquet dos sentimentos, dentre outras. Muitas cores, cada qual uma beleza mais querida. E amor lá, até a última pétala, amando...

***

Pra mim o amor é ponto de partida e de chegada...

***

O amor é a janela aberta.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

RUA DA PRAIA

Enquanto eu ando a pé, o mundo passa de uma forma mais lenta. Nas paredes, mais janelas...nas calçadas, muitas cores... e entre esquinas, mil ideias...
O problema todo é a hora de chegar. Ah... essa hora de chegar... Se não fosse ela, cada rua seria uma praia...

ILHA DESCONHECIDA

A genialidade e a estupidez são dois barcos no mesmo porto.

ZECA BELO

O penteado é a mentira da cara.

MAGNETO 1

A coisa mais inútil do mundo é a razão depois do tempo.
O maior atraso que existe é o da certeza.
E é também a melhor ausência.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PONTE 2

A comunicação é um encontro no meio da ponte da linguagem entre o emissor e o receptor.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

VIVER MUITO É COISA DE VELHO


Ontem fiquei sabendo que meu novo filho, que nascerá em outubro, é um menino... ainda sem nome... esperando, como eu, que o tempo responda suas questões neonatas.

***

O tempo responde tudo... anseia... divaga... acelera... O tempo enche minha cara de rugas, minha cabeleira de fios brancos espalhados, se encontrando, do meio pra frente, daqui pra frente, cada vez mais...
Os amigos vão sumindo... os irmãos, ficando diferentes pela idade acrescida... aquele tio bacana já morreu... o carro antigo que o pai comprara não existe mais... naquela esquina agora tem um prédio enorme e o campinho de futebol virou três casas de concreto.
Tudo muda... tudo é impermanente... tudo deve fluir, sem que queiramos nos segurar no mistério das coisas... sem que tentemos estabelecer verdades eternas, rostos sempre iguais...

***

Mudar é bom e é por isso que morremos.

***

E eu, que estou ficando velho, já fui o nenê esperado de alguém, que foi um nenê também. E é essa mania dos bebês chegarem dominando o mundo que nos faz ter a impressão de que somos perenes como uma pétala...

***

A eternidade é o agora: feliz nele, feliz sempre.
Porque a vida se mede em largura, não em comprimento.

A VIDA DE ALFREDO


Encontrei o Alfredo no cemitério, num velório em comum. Ele me avistou de longe e caminhou, lentamente, em minha direção. Me apertou a mão e falou, com sua tenaz falta de ânimo.
Essa vida é mesmo uma merda!

***

Eu poderia ter dito que discordo, mas preferi o silêncio. Afinal, cada um vê a vida como pode. Eu vejo a minha como um jardim na tempestade... Há flores, raios, trovões e a chuva, que de uma hora a outra se transmuta de força a alimento e traz os mares ao quintal de casa.
A vida é show... é mágica... somos dela, cada um e todos, atores principais... protagonistas da própria história... E não tem segunda chance: é apenas na peça de estreia que subimos ao palco e fazemos, do roteiro, mescla do determinismo e da esperança, a ação que desejarmos.

AS INDAGAÇÕES


A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
***

Hoje, 30 de julho de 2010, kin 113, Caminhante do Céu Solar, Mario Quintana completaria 104 anos. No mesmo kin, há 104 anos atrás, o mundo começava a ficar mais belo...

CONTATOS MODERNOS


Alan Sieber

O HOMEM QUE NÃO SABIA MORRER


E era tanto frio naquele dia
Que nem o mundo acontecia
Na chama dos dedos, ele observava
[Sob os rastafaris do cobertor de lã
Os movimentos na calçada úmida

Era o ponto mais distante do verão
Mas o calor que lhe faltava
Era dentro...

O coração pode ser
O pior de todos os invernos...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

TROFÉU CHICO XAVIER


Passada meia-hora da Copa do Mundo na África, só se fala na Copa do Mundo do Brasil. Quem é a favor, quem é contra, o superfaturamento, o turismo e blábláblá. O que será que os estrangeiros vão pensar? Será que vão reparar as heranças históricas da exploração e do genocídio que provocaram e provocam aqui?
Ai... eu vou ficar com vergonha se os europeus notarem nossos mendigos e favelas.
Vou morrer de vergonha.

***

E o logo da Copa do Brasil 2014 parece o Chico Xavier espiritografando.
Por isso a Copa 2014 vai se chamar Troféu Chico Xavier, pois é pois é.

***

E a bola vai ser a Superfatulani.

***

E por falar em futebol, o time do Flamengo até que é bom. O que mata é o goleiro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

PEDRAS E LINHAS


Depois de alguns anos, caminhei por Santa Rosa, minha cidade natal. Aqui, já não lembro o nome das ruas, das tias e primos nem tão próximos assim, das pessoas... não conheço mais ninguém. As referências pontuais, quase todas perdidas. Lojas e comércios trocam de fachadas, trocam de placas, e parece que tudo é perto da casa da mãe, o centro do mundo aqui.
As ruas de pedras irregulares guardam estranhas linhas retas, como é metódico o progresso e estigmatizados os conceitos do correto... O alemão cortou a amexeira onde eu brincava e os vizinhos seguem invadindo a casa livremente pra saber como estamos todos, nossas profissões, os filhos, o quanto ganhamos e todas as informações possíveis que alimentem suas coleções mentais de vidas.

***

Mas todo motorista para na faixa de pedestres.

***

Tudo é cultural. A mente interpreta o mundo... É impossível ver o que não se pode entender. E todo entendimento chega no momento certo... nem um minuto a mais. Embora não pareça, o mundo começa e acaba no um. A cada indivíduo cabem seus passos e suas direções... E cada um elabora os conceitos que consegue... e executa aqueles que pode. Mudando a si, muda-se o todo.

***

Porque a sociedade é como as ruas irregulares de Santa Rosa... Repleta de pedras tortas e linhas retas.

ENTRESQUINAS


A rodoviária de Giurá é uma esquina vazia na cidade.
A cidade de Giruá é uma esquina vazia do pampa.
O pampa é uma esquina vazia do mundo.
O mundo é a esquina vazia onde moro.

sábado, 10 de julho de 2010

O RIO E O OCEANO


Diz-se que o rio treme de medo antes mesmo de cair no oceano.
Olha pra trás, para toda sua jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, dos povoados... e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Pode-se apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece.
Apenas o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se o oceano.
Por um lado é desaparecimento; por outro, renascimento.
Assim somos nós: voltar é sempre impossível. É preciso ir à frente e se arriscar... é preciso, sempre, ter coragem.

CANTEMOS


Cai a chuva lá de riba tamborilhando no chão
Eu canto, que o peito canta, na rima do coração
Cantemos que a vida passa
Como chuva de verão...

***

Eu já vivi outras vidas. Ao contrário de muitos amigos meus, que já foram imperadores, Jesus (tenho dois amigos que já foram Jesus), mártires, eu fui um operário... Trabalhei tanto que nesta vida eu não quero nada... só vagabundear.
Fui com o Dico e o Nando visitar o cemitério... o túmulo dos avós, do pai e até do tio Torres, encontrado na sincronicidade. Então pensei, ao ver uma cova aberta, a terra espalhada no chão: se eu já tive outras vidas, é porque eu já morri também outras vezes. E se o eu que já morreu estivesse enterrado aqui, neste cemitério? E se o meu outro corpo, passado, já estiver putrefato e comido pela terra, então eu posso ser esta terra aqui, que o eu novo pisa agora. Posso até estar numa árvore dessas, que sombreia a cidade dos mortos... a cidade que só cresce... Então o eu de agora pode estar pisando na terra do eu antigo... ou até mesmo cheirando a nova flor deste ipê em que me transformei.

***

Morrer não deve ser ruim. Todo mundo tá rindo nas fotos... E ninguém vai embora nem reclama...

FILO SOFIA


Eu posso até acreditar, mas não agora!!!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

POETA UMA OVA


Alguns achavam estranho aquele motoboy ser cego.
Mas poucos sabiam de uma mania sua muito mais estranha: escrever poemas dentro de ovos.

MEU AMIGO DIABO


(No ônibus.)
Mãe... esse aqui é meu amigo, o Diabo.
Muito prazer senhora...
Não precisa se assustar não mãe... ele não é aquilo que todo mundo fala. Ele é gente boa!

***

Pó, Diabo. Tu me faz passar por cada constrangimento. Por que passaste a tranca naquela senhora? Sacanagem gratuita? Tu não existe mesmo...

***

Ô Diabo... como teu amigo, vou te dar um conselho. Devolve a carteira do cara, meu. Tu não precisa disso, tchê! Depois que o pessoal fica falando de ti, tu fica com a cara amarrada.

***

Alô... Diabo!? Beleza cara, sou eu. Vambora pro jogo? Às 15h, mas é bom a gente chegar mais cedo, cara. Não... não faz isso. Vai ter segurança lá mano! Cheio de segurança! Não... não pode entrar com bebida. Beleza. Daqui a pouco passo aí. Falou!

***

Bom-dia!? O que era pro senhor?
Eu vim ver as calças jeans da promoção.
Ah... pois não. Venha comigo, sim?
Gostosa!
Como é?
Dizem que essas calças são gostosas.
Ah... são sim. E o preço ta bom.
E vocês trabalham com crediário?
Não, não... só à vista mesmo.
Mas que inferno!

TIO MANECO


Olha a casa do tio Maneco!
Olha o cavalo do tio Maneco!
Olha o tio Maneco!
Oooooi tio Maneco!?

IVANDALÂNDIA


É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há!

***

Desperto com essa música um tanto antiga, porém sempre atual. 5h da manhã e o ônibus para em mais uma cidade com nome de santo. Estou sozinho, indo visitar minha mãe, doente. Ela bem que poderia também dar nome a uma cidade... à minha cidade... pois eu percebo, repentinamente, a importância dela em minha vida.

***

Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu.

***

Era julho. Ainda longe de uma primavera. A escuridão de toda noite era quebrada por uma luz direcional sobre o rascunho onde eu escrevia, e as fonéticas surgiam ao ritmo da música que eu ouvia.
Isto também passará, como quase tudo em minha vida já passou... Exceto a presença e o amor de minha mãe, sempre a me iluminar, como faz esta pequena luz agora. Preciso urgentemente dizer a ela o quanto a amo, antes que o mundo acabe. Antes que um de nós deixe a vida mais cinza...
Porque na vida, tudo fica antigo: menos as mães e as músicas.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

2 DE JULHO


Um ano não é nada
E é muito tempo
Quem dera a vida andasse para trás

Mas esta vida é assim
E não tem jeito
E vai pro sempre o nunca mais...

Então eu penso,
Como um clic na memória,
N'alguma história, uma lembrança, uma canção

E achava até que era só falta de sorte
Que entre a vida havia a morte, havia o não,
Mas à mentira o puro amor sempre socorre
Pois nunca morre este amor no coração.

ENTRE SEGUNDAS


Que dia é hoje? Segunda? Segunda-feira? Já é segunda-feira?

***

Quem é que tá jogando? É o Brasil que tá jogando? Já é meio-dia então? Como? Contra quem o Brasil tá jogando? Ãh?

***

Tá pronto o almoço? Já dá pra comer alguma coisa? O que é que tem pra comer? E tu quem és que eu não conheço? Minha neta? Ah... como tá bonita e grande!

***

Dá pra botar no canal da missa? Eu gosto daquele padre bonito... Esse é o canal da missa? É o canal da missa? Ah bom... Então não começou ainda?

***

Já é segunda-feira de novo?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

TOCA UM RAULLLL


As verdades são falácias; são muros prestes a cair. Como pode haver verdade num mundo tão distinto, de culturas, credos e concepções tão diferentes?
A verdade é escrava do ponto de vista. É areia no bolso; é vontade que passa; ânimo finito.
E eu já tive tantas verdades que não tenho mais...

***

Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

ONDE OLIMPO?


Cronos comia os filhos para enganar o tempo, mas poupou Zeus, que era o queridinho do papai. Mas como o mundo dá voltas, o queridinho revoltou-se e matou o velho pra sacar os irmãos Poseidon e Hades da pança cronática e gorvernarem o universo, conjuntamente juntos... pois é pois é.

***

Hades, o mais velho, queria o direito do primogênito à escolha, afinal de contas, havia o céu e a Terra, os mares e o mundo dos mortos para serem governados entre os três... Mas Zeus bateu o pé (bico pra ele) e, no sorteio do palito, ficou sendo o deus dos deuses. Poseidon ficou com os mares... barbada. E sobrou a Hades o mundo dos mortos (sacanagem!!!) e ele tornou-se um deus triste.

***

Ninguém rezava nem homenageava Hades. Muito pelo contrário: todos o temiam. Claro, pois dele ninguém escapava, exceto Jesus, mas isso é outra e longa história.

***

Sísifo tentou enganar Hades e se fazer de vivo pra ficar ali, na terrinha, na boa, curtindo uma eternidade. Pediu pra nega não enterrar seu corpo quando morresse e disse a Hades e Perséfones que desejava voltar pra se vingar da mulher. Só que Hades descobriu e o obrigou a rolar, todo santo dia, uma pedra até o alto de uma montanha, até o fim dos tempos. Por isso lá no Olimpo eles dizem: aquele sisifu.

***

Orfeu tocava sua lira e fazia magias. Contudo, não pôde evitar a morte de sua nega, Eurídice, que foi atacada por um Sátiro safadão, que bandeava pelo milharal e a perseguiu a três-pernas. Então Orfeu foi lá bater um lero com Hades, ver se resgatava seu cobertor-de-orelha. Tocou a lira e encantou a todos, fazendo com que Hades deixasse que Eurídice o seguisse até o mundo dos vivos. Mas, e todo deus tem seu mas, se, durante o percurso de retorno, Orfeu olhasse para trás, a perderia para sempre. Era uma prova de confiança nela e nos deuses. É claro que Orfeu não se aguentou e deu aquela espiadinha por cima do ombro... Mas como a Hades ninguém engana, Eurídice ficou presa eternamente nas cavernas do submundo. E Orfeu virou um cantor chorão, dando origem à música sertaneja. Pois é pois é.

***

Eu só queria saber onde estão os deuses em que eu não acredito.

MÁQUINA DE FAZER SOM


Isto é quase inacreditável.
Esta incrível máquina foi construída como um esforço colaborativo entre o Robert M. Trammell Music Conservatory e Sharon Wick School of Engenharia da Universidade de Iowa. Surpreendentemente, 97% dos componentes de máquinas vieram da John Deere Industries and Irrigation Equipamentos de Bancroft... Sim equipamentos agrícolas!
A equipe gastou 13.029 horas entre set-up, alinhamento, calibragem e ajustes antes de filmar este vídeo. A máquina agora está em exibição no Matthew Gerhard Alumni Hall, na Universidade, e já está programado para ser doada ao Smithsonian.

***

Muito estudo pra fazer o que os pássaros fazem ao natural...

SAL DE CHATO


Cruzei a fronteira da chatice e devo um níquel pro Caronte.

***

É que cada dia que passa eu gosto de menos coisas. Estou virando um velho e chato, acho, tenho quase certeza... Mas quem não está?

***

Não gosto de vuvuzelas; não gosto de visitas. Se tem coisa que não suporto é fazer compras e andar no meio da multidão. Não consigo com fôlderes e panfletos nas esquinas, nem com jornais e revistas gratuitos. Tô sem tesão pra escrita e poucos filmes me chamam atenção. Não tô jogando bola nem fazendo esporte algum. Tô detestando café doce e papo sobre espiritualidade. Não aguento mais telefonema demorado e corrida de F1. Antes eu gostava de rio gelado, de água de côco, de brinquedo de parquinho da Fenadoce. Antes eu gostava até de doce... Adorava ler José Simão e ficava acordado até tarde pra ver o Jô: dois chatos, que nem eu. Que nem o Caetano Veloso, o Vitor Ramil. Todos chatos. Eu gostava de ver futebol na Bandeirantes,, antes dela estar cheia de chatos. Gostava de encontrar artistas pelotenses pelas noites... agora noites chatas, e os artistas, vaidosos malas. Gostava de debate político, meu deus. Eu gostava sim... Mas agora, bando de demagogos, safados... todos, uns sem-graça, que nem o cara do mercado e o cobrador do ônibus.

***

Alguém ponha um pouco de sal no mundo!?

***

Tenho que atentar para o que eu estou me tornando: um chato.

terça-feira, 15 de junho de 2010

JULES RIMET


Há duas gerações que Marx Lênin era proibido falar no assunto. Desde que seu avô Godofredo fizera aquele memorável crime, que a família começou a mudar. A vó não ia mais ao super. A mãe não podia ter amigas... Seus tios todos se tornaram padres e seu pai, um sigiloso genro... Toda a atmosfera do mundo afora se restringia àquele segredo..
Ele, desde criança, não podia falar nada pra ninguém. Ele tinha um valioso objeto no armário, mas não podia mostrá-lo pra ninguém... nem pros seus melhores amigos. Era um segredo só seu. E quando, em algum programa esportivo que assistia, ouvia falar no seu nome... tremia. Afinal de contas, se alguém, quem quer que fosse, neste Brasilzão de Deus, se alguém aqui soubesse que ele tinha a Jules Rimet, ia dar morte. Certo que ia.

terça-feira, 8 de junho de 2010

TZZZ


A vida é um curto-circuito entre duas eternidades de escuridão.

OS DEDOS E AS COISAS


Um raio em cada lugar,
O fogo queimava o chão,
Crateras abriam nas rochas,
E chovia chorume dos céus...

O lixo invadiu as matas
Com casas ao seu redor
E gente olhando pelas frestas da janela
Os perigos que de haviam de si

Meus dedos eram meio coisas
Meio eu
E a cidade, um câncer na pele do planeta

O ritmo das ruas era o sangue
Que mantinha o monstro pra sempre criança
Seus segundos, marcados com cifrão
E no verso, a cara de um barão.

OS BARES DO VELHO CUNHA


O Velho Cunha, desde quando Novo Cunha, sempre trabalhou em bar. Herdou o bolicho de madeira do pai, que herdou do avô, e, depois de algumas benfeitorias, transformou no famoso Bar do Cunha, que é pra ser pra lá de óbvio.

***

Claro que quando ele morreu ele quis montar no céu um bar, afinal de contas, não poderia ficar pro resto da eternidade naquele marasmo, sem fazer nada, olhando borboletinhas em nuvenzinhas de algodão e anjos sem sexo a andar com sua nudez sem graça pelo paraíso.

***

Na primeira semana vendeu 20 engradados de cerveja.
Na segunda semana, vendeu 50 engradados de cerveja.
Na terceira semana, vendeu 160 engradados de cerveja.

***

Num dia de descanso (porque até no céu se descansa), o Velho Cunha teve uma brilhante ideia: abrir uma filial no inferno. Claro... o inferno era um lugar horrível de quente... bom... o que mais dizer? Era o inferno, ora bolas... quer u lugar melhor que o inferno pra vender cerveja?

***

O diabo disse que não ia dar certo, mas aceitou permitir o estabelecimento.

***

Na primeira semana vendeu meio engradado de cerveja.
Na segunda semana, vendeu 3/4 de um engradado de cerveja.
Na terceira semana, a muito custo, vendeu um engradado de cerveja.

***

Questionando o cramunhão o porquê do insucesso comercial, o capeta respondeu:
- É que aqui tem muito evangélico!

sábado, 5 de junho de 2010

VISITAS

As palavras são o que querem ser... podem tudo... Enquanto falo, o mundo muda... e as perfeitas frases da gramática são engodo... as perfeitas orações, são vaidade.
E eu não gosto de visitas... nunca gostei.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ELE, ELA E O MORENO


Ela saiu pra comprar pão e ele nunca soube que aquela era a banda que a faria decidir que o largaria pra ficar com o moreno que morava na Dom Pedro e se fizera de amigo pra poder se aproximar.

***

Ela disse não e pediu apartamento. Ele quis saber porquês, enquanto que o moreno prometia ser o que Platão nem ideara; na cama, nas flores, no samba... Ela acreditou, como acreditava sempre, e ele passou de mito a chato.

***

Meu bem pra lá, meus bens pra cá... Ela e o moreno montaram mercadinho e, entre o vasto sexo novo, atendiam à comunidade. Ele, partido em dois, projetava vida nova sem sua metade, num quartinho emprestado de um amigo seu, porque a escada da vida nem sempre sobe...

***

Tanto é que o moreno já tinha arrumado outra nega, e a mulher do amigo muito a ele interessava...

***

Pois o outro é a fuga de si.
Não importa quem se queira... A mente inquieta não suporta o vazio.

MESA ANTIGA

Pegue sua mesa de 1845 e enfie no cu de 1952.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

TODO MUNDO É UM POUCO GREGOR

CHOCOLATE DE DEZ ANOS


Comi uma trufa de chocolate branco agora... vixe-mãe, nem te conto. Impressionante o sabor do chocolate, ainda mais em Pelotas, capital do doce. Eu realmente não sei o que seria da minha vida sem o chocolate, sério. Pra mim, depois do fogo e da roda, o chocolate foi a maior descoberta da humanidade. Ah, depois da energia elétrica também, porque com energia elétrica pode-se produzir muito mais chocolates.

***

Não tem aquelas dietas que as pessoas param de comer chocolate? Não tem? Pois eu abro mão de 10 anos da minha vida pelo chocolate. Não vejo motivos de permanecer vivo sem o chocolate... não vejo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

DOCE PROFESSORA


A doce professorinha
Ensinava com didática
Os meandros da língua portuguesa
A seus pequenos famintos

Atrás do livro de lições,
O hino nacional...
Ensinava às crianças
Lições de patriotismo
E nos intervalos, conversas sobre programas de TV

À noite, dormia sozinha
Enquanto envelhecia
E sonhava ainda em ser a mãe
Daquela boneca Barbie...
E seu Ken?
Ora ninguém...

Pensava nas contas
Tinha medo de trovão
Questionava quase nada
Pois ainda era aluna da vida
Aquela doce professora
Porque a vida
É uma aula sem recreio.

A RUA


Eu não sei se moro no início ou no final da minha rua.

***

De manhã cedinho
Pessoas caminham
Num ritmo acelerado
Pra algum lugar

Algum emprego
Um escritório qualquer
Onde batem ponto
E se reconhecem
Como pessoas de bem
Por escravizarem seu tempo
Em troca de moedas...

Este é o início da rua.

***

À noitinha
Bem na calada da lua
Outras pessoas aparecem
Todas pretas
Uns demônios observam, outros entram nas bocas de fumo
Outros tantos trepam nas sombras ocultas,
Picham muros e quebram vidraças
No ponto exato onde acaba a rua.

***

Da vidraça, viro peixe. Observo o mundo, dando voltas às costas das gentes. Enquanto isso, uma expedição encontra um alpinista, morto há décadas, absolutamente conservado pelo frio dos Alpes. Seus filhos, ao olharem o corpo, vêem o pai mais novo que eles próprios... e enterram, junto ao corpo, sonhos que até então estavam vivos.

***

Sonhos morrem.
Sonhos vivem.
E os meus, em que passo estão?

CONQUISTA

Conquistar uma mulher é uma barbada.
Reconquistar uma mulher é o que eu quero ver.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

INJUSTA BONDADE


Bondade é diferente de justiça. A justiça é equânime; a bondade não.
Explico.
Sempre ajo pensando em ser bom... em fazer o bem. Contudo, reflito sobre o bem e o mal e percebo que são conceitos complementares e interdependentes... ambos, o bem e o mal, têm aspecto próprio e atmosfera peculiar, mas dependem da justiça para que tenham êxito.

***

Se eu tenho R$ 30 no bolso e entrego a um usuário de crack, por exemplo, estarei sendo bom ou mau? Posso estar pensando no meu âmago que sou bom, pois me privei de uma condição material hipotética para beneficiar alguém que me pedia... Minha mente está orgulhosa, mas meu coração sabe do erro. Posso pensar que estou desapegado... como é belo alguém ajudar o outro. Mas eu, neste exemplo, ajudei a destruição do outro. Sigo sendo bom? Minha mente pode até me convencer que fui bom... afinal, cada um com suas circunstâncias... detalhes da vida de um dependente cabem a ele, apenas. Eu sou bom e ponto. Contudo, sou justo? A minha bondade é justa com a outra pessoa, com o seu merecimento próprio? E se ele, o beneficiado, não for um merecedor? Então a minha injustiça se tornará maldade, pois irá gerar uma atmosfera mau, um engodo, um engano, atributo do que não é o bem.
E minha cabeça, teimosa, vai achar que sou bom.
E minha aura estará, entrementes, impregnada de injustiça e ranço.

DIA CLARO


Era um dia claro. O sol ganhava as nuvens, como a flor amarela no cabelo dela... E, do espaço, alongava e encolhia as sombras, dourava as vidraças e desenhava o arco-íris no céu. Enquanto isso, as nuvens iam embora... E vinham outras, novas nuvens...
Ela tinha forma de fera, como a nuvem...

***

Agora mesmo há alguém no Congo
Outro alguém que já partiu
Eu continuo aqui, como uma criança cega...
Tateando o mundo...
A mim mesmo...
Procurando a cada instante onde nasceu a primeira certeza...

Mas continuo cego...
Vou morrer cego...
Desaprendendo tudo
A todo momento.

TOY MARISCO


Toy Marisco era um cara foda.
Um temível marinheiro.
Era um susto vê-lo com o charuto na boca.
Graaaande Toy Marisco, diziam ao vê-lo.
Tapinha nas costas.
E ele era grande mesmo.
E careca.
Uma mescla de David Beckham com cicatriz, Popeye e o cavaleiro medieval recosntruído pela universidade inglesa.
Era belo e feio, o Toy Marisco.

***

Mas um dia, a puta que ele amava fugiu com outro. E putas são como as certezas: se as amar, serás um idiota. Mas Toy Marisco a amava, se é que um dia ele, a besta-fera encarnada e careca, tivesse sabido o que é o amor, ou se é que alguém neste mundo sabe...
Então ela saiu de Santos e foi morar em Caxias pra casar com o Giuseppe, que veio da Fiorentina pra jogar no Juventude. Regina, a Puta.

***

E Toy Marisco envelheceu, ficou magro e apenas feio.
Deprimido, começou a beber e a se isolar num quarto escuro daquele porto sombrio.
Depois de meses assim, Toy Marisco reagiu.
Reergueu-se.
Perdeu nariz.
E entendeu que as mulheres são como as ondas.
Ou te levam, ou te ferram.

***

Mulher não é pra sempre, mas ex-mulher é pra sempre.

terça-feira, 18 de maio de 2010

REPIPOCA


Ontem na noite fiz uma aventura que entraria pro livro das aventuras do Duda, se um dia existir. Capítulo das coisas mais malucas, lá pela página 8.903. É que quando o Johan era pequeno (6 meses), dei a ele um cachorro labrador chamado Pipoca. O Zé Pequeno recém havia morrido e a tristeza da não-presença canina sentida pela Nena e pelo Alemão me fizeram presenteá-los com um cachorrinho meigo, amarelinho, que fedia a leite e pulava pelos cantos, o Pipoca. Virou até música...

***

Ele chegou em casa doente e mamou do leite excedente da jovem mãemãezinha Nena, que parecia a vaca das cinco tetas... airbag duplo, enfim... Bebeu do nosso leite, como diria o prefeito..., mais do Jojô do que meu... porque eu sempre me interessei foi pela embalagem, mas isso é uma outra história.

***

Depois de um ano na praia do Laranjal, o Pipoca (junto com o Chico e o Kin) foram morar comigo no mato e, a posteriori, na Colônia, pra onde levei mulher e filho. Pois bem... quando fui viajar, o Pipoca sumiu e nunca mais o vimos. Seis meses de procura... A certeza de que agora, com nossa família de volta à praia, tudo seria diferente... Os seres avisaram... o pressentimento virou convicção, e o Pipoca foi visto numa casa na colônia, agora com o codinome Jake.

***

Entrei no carro.
Uma caixa de bombom.
Não era pra mim.
Era pra família que abrigou o Jake, digo, o Pipoca.
Chegamos.
Era ele, deitado na grama.
Pipoca!!!
Choro.
Conversas acerca.
Viajamos; Pois eu cuidei dele.
É manso; E lindo.
Apareceu por aqui...
Só que havia um detalhe que não contávamos.
A família não queria devolvê-lo.
Nem dinheiro, nem chocolate.
Queriam o Jake.
E eu, o Pipoca.
2 em 1, como os velhos Sony.
Jaaaaaaake: vem.
Pipooooooca, aqui.
Ele fica.
Ele vai!
Vou chamar a polícia!
Que ingratidão! A polícia?
O cara gordo levou o Pipoca (ou o Jake?) pra dentro de casa.
A mulherada chorava.
A minha e a dele.
E o que estava em jogo agora era a minha reputação com a Nena, ora bolas.
Marido macho, isso que sou.
Grande reprodutor.
O pedreiro jogou o chocolate no chão, para o deleite dos outros cuscos.
Tiveram o privilégio de me chamar de ignorante.
Os únicos no mundo.
E quase deu briga.
Eu ia matá-lo por amor.
Cheguei a pensar rapidamente em sumir dali com o Pipoca e deixar a Mariana.
Ela que fuja de ônibus.
Mas não fiz.
O fato é que eu saí de lá com o Pipoca.
Marido macho.
E meu filho ganhou o mesmo cachorro pela segunda vez.
Nem deu tempo de dizer obrigado.
Nem tchau.
Mas agradeço, de coração, pelo cuidado que tiveram.
É o apego, disse o cara.
Mas se alguém tem que dormir mal, que seja ele e não eu.
Cordialmente, em algum lugar do cosmos, agradeço.
Pelo Jake, digo, Pipoca.
Até uma hora qualquer.
A gente se vê...
Ops... cuidado aí com as pedras...
Aquele abraço.
Fui.
Fomos.

O SOU


Amor é preciso
Religião não é preciso.

***

Deus é mais que vida
Deus é vida e morte
E ainda a sub e a supravida
E a endo e exomorte
Do intracelurarismo ao extrauniversalismo

É o grande e o tão pequeno
É o nada no tudo
E o tudo no nada
E é por isso que não rezo pra ele
E
Ao mesmo tempo
O sou.

É E É


A sincronia existe a um patamar acima da cabeça tridimensional. Engloba credos, religiões, ciências e conceitos... tudo fica pequeno uma dimensão abaixo. Ante ela, não há questionamentos: ou se vive, ou não se vive.
O sincronário é apenas uma ferramenta, como são o martelo e a marreta. Só que a construção, no caso tempo, é a anti-matéria... é o insight que liga todos e cada um ao todo natural, que vulgarmente recebe nomes de deidades.

***

A sincronia apenas é. É e é.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

OI


Os dois ciclistas iam se afastando... eu andava a pé. Atrás deles, um céu negro, repleto de estrelas... tantas que, se traçadas, demonstrariam o nó da criação divina. Uma complexidade tão imensa que nem os altos muros da filosofia conseguem cercar...
Um cachorro deitado na rua; uma rua deitada no mundo. Meu caminho é um mapa e o xis do meu destino são as estrelas, de onde venho, pra onde volto, a ser mais um ponto a ser traçado por um observador da tridimensionalidade...
Lá, no ensejo da questão do tempo, de repente, eu já seja uma... cada um de nós pode ser uma... Em algum ponto da precipitação temporal, de repente, nem nascemos ainda...
Uma estrela cai, risca o céu. Mas as estrelas não caem: elas apenas dão um oi, na sua forma brilhante de comunicar. Nós, aqui, nesta tênue passagem, damos o oi que podemos.

QUESTÃO DE TEMPO


Mais um dia ou menos um dia?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

UM CHÁ


Ainda estava acordado quando ele chegou. Não bateu à porta, como de costume... espiou, entre as frestas da janela, silencioso... Levantei-me do conforto do sofá, que descansava as pernas do dia... deixei de lado a caneca com chá, e o vapor dançava rumo às estrelas...
Abri a porta, 23h. Ele entrou, mas antes me cumprimentou, com seu abraço fraternal demorado. Falamos breves assuntos... superficiais, como a brisa da manhã... observei o céu, claro, estrelado... era a forma com que eu costumava pensar... olhando o céu... embora meu jeito quieto, de poucas palavras, eu pensava muito... mas não discutia... não existem erros nem verdades... apenas o caminho... e o caminho dele o levara a mim, naquela noite de outono.

O chá... apontou ele ao braço da poltrona.
Queres um?
Não.
Então?
Pois é... estou com alguns problemas...

O fato de ter problemas não era exclusividade sua. A forma com que se relacionava com eles, sim. Idiossincrático. Nunca reclamava... absorvia as circunstâncias, resolvia as adversidades... mas aquele dia, ele reclamou.

Estou morrendo...
E quem não está?

Tomei mais um gole do chá... Observei, como sempre observo, antes de qualquer palavra.

O que posso fazer?
Nada, disse ele. Não podes fazer nada.

O nada era muito, para aquela situação. Estávamos tranquilos. Ele entendera que o seu processo era complicado, mas correto, a vontade do grande espírito.
A estrada era certa... breve... branca. E as mochilas deveriam ficar... Não se pode levar nada... Nada nem ninguém...

Mais tarde ele aceitou um chá. Preparei outro pra mim também.
A vida... um grande barato... nos ensina em todos os momentos que se mede em largura, não em comprimento...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

SURFISTA PRATEADO


O Surfista-prateado saiu da loteria
E eu ainda não sabia
Se aquele rap francês
Era doce ou agressivo
Ouì, em todas as línguas existe fúria...
Em todas existe poesia...
Em todas existe o homem
Num próximo ponto
Atrás do pensamento...

ILUSTRÍSSIMO ASSESSOR


Não reclame, ilustríssimo assessor,
Honre seu salário
[que não é baixo

E trabalhe,
De preferência com a sua inútil boca bem fechada
E sua feia cabeça baixa...

O seu pai é um reconhecido político
Escroto como todos seus amigos
Da sala de reuniões

Mas você
Você não é nada
[um subnada

Muito rapidamente
O mundo dá voltas
E logo
[brevemente

A porta dos fundos
Por onde entraste
[traste

Estará fechada
[de repente, comigo fora.

NA PRESSÃO


Dinamite é o feijão cozinhando dentro do molho dela.

terça-feira, 4 de maio de 2010

BEM MAL


O diabo se assusta com a própria sombra
Porque ele é a besta, mas também tem medo
Ainda mais de si...

***

Se pro inferno vão os maus
E lá, são punidos por serem maus,
Então, e logicamente, seus punidores são bons
Porque é o bem que castiga o mal...

Logo, o Diabo é bom, pois penaliza o mal
[todo mal
Que vem de fora

De fora de onde?
Ora bolas, de fora do inferno...

Então, o mal vem de fora do inferno, e não de dentro
Pois lá dentro ele, o mal, é castigado...
Logo, o inferno deve ser bom...

Diablicamente bom...

***

A grande questão
[grandíssima questão

Que nos resta
É definirmos
Com exatidão
O que é o bem
E o que é o mal...

ESPELHO DE PORTA


O sol do outono
Vai acordando as coisas,
Iluminando os últimos detalhes da noite...

E a lua no céu
Permanece pequena
Como que pasma pelo dia que nasce...

Eu, cinjo os olhos na janela
E imagino, repentinamente,
Que a vida existe enquanto durmo

Mas a vida está em tudo
Inclusive em mim
Como me mostra
Este pequeno espelho de porta.

A POLÍCIA NUNCA SABERIA


A polícia achou estranho
Aquele maluco tocando violão
Não pedia esmola
[não pedia nada

Apenas tocava
De pé no chão

Não era mendigo
[antes muito pelo contrário

Até que era um bom cidadão
Pagava impostos e taxas em dia
E sentava na frente da televisão

Mas naquele específico dia
Numa banda por sua cidade
Esbanjava alegria pros prédios
Derramava alegria nas fontes
Era algo sem explicação...

Mas aquilo soava tão louco
O maluco e o seu violão
Musicando a cinzura das horas
Competindo com as liquidações

E aquilo que ele sentia
E se era loucura a alegria...
Nem a polícia saberia...
A polícia nunca saberia...
A polícia jamais saberia.

IMAGINOSHO


Sempre que você está tenso, jamais pensa que sua tensão e angústia possam ser sua fantasia... Se pudesse, elas desapareceriam. Assim, se você pensa que seu silêncio e sua felicidade são imaginários, eles desaparecerão.