quinta-feira, 5 de junho de 2008

DIZ NEI


O mundo é dos bancos
E os bancos,
Dos mendigos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

ILHAS

Estamos remando no rio do infinito. De um lado, o porto de uma vida... de outro, o porto da outra. Somos a grande viagem acontecendo no louquíssimo itinerário do eterno.
Algumas vezes em águas turbulosas... outras em espelhos suaves... E o barco, enquanto anda, pára em luzes ilusórias, aporta em ilhas desconhecidas... Diria o Saramago que somos ilhas ambulantes que procuram a si mesmas...

sábado, 31 de maio de 2008

O GATO


Lá no Zezinho, ontem, digo hoje, porque já era 4h30min da manhã e a galera toda filosofando ao redor da mesa carinhosamente posta pela Aninha. Sobre as definições que a mente cartesiana necessita fazer sobre coisas, seres, objetos, enfim... sobre a necessidade viciosa de substantivação das coisas pelo homem, na medida em que busca compreender o todo no mesmo momento em que não compreende a si próprio, surgiu o velho exemplo de uma questão singela, mas que dá base a discussões profundamente profundas, como diriam em Santa Rosa. Eis-la: O que é um gato?
Na tentativa de definir o que seria um gato, poderiam ser traçadas características fisiológicas próprias da espécie, atitudes pertinentes a seu comportamento, possibilidades e previsões. Mas, de fato, nunca se poderia dizer na plenitude o que é um gato, porque a resposta exata não existe. Não em forma de palavras! Ela simplesmente se manifesta na singela existência fática do bichano... A resposta é o próprio gato menos tudo o que se pensa!

***

Aí o pupilo solicitou ao mestre que o explicasse que raios vinha a ser um gato. O mestre, muito malucão, saiu com o aprendiz e catou um gato na rua. Chegaram à sala de pesquisas e ele anestesiou o bichano e, logo em seguida, passou a exumar o felino.
Arrancou e abriu-lhe a cabeça... partiu o ventre em dois... examinou a musculatura e o sistema nervoso... mexeu meticulosamente nos intestinos grosso e delgado... fuçou no sistema respiratório de modo que os pulmões ficassem em frangalhos... analisou cuidadosamente as funções das unhas e bigodes e pesquisou nos mínimos detalhes a estrutura óssea correspondente. Depois de horas de pesquisas, o mestre virou e perguntou pro aprendiz:
O que é que tu me perguntaste mesmo?

A LUZ DO POSTE


Ilusão mesmo é achar que o eu existe.
A vacuidade e a impermanência são grandes ensinamentos... Através deles podemos perceber que cada um é o outro refletido, como elos em correntes, onde a fragilidade de cada elo corresponde ao fracasso coletivo, onde os defeitos vistos nos outros são a própria manifestação de nossas maiores imperfeições contidas e que, quando se percebe que o corpo morre e, quando se vai ver, já não se há, que todas as coisas são fugazes, a começar pelo exato instante... Quando tudo isso começa a se tornar claro, a percepção de que é ilusão achar-se fora de um grande todo, dirigido por egos e poderes, por belezas e vaidades, se torna evidente.

***

A luz do poste não existe para iluminar a rua... Ela existe por si só, na soma de componentes químico-eletrônicos, seja lá o que for. Ela não quer nada... nem se preocupa com a destinação que a racionalidade humana lhe dá.
A luz existe para brilhar a sua luminiscência intrínseca.

INCOMUNICA-TRUMBICA



A vida, como grande brinquedo que é, sempre nos presenteia com surpresas e revelações. Nem questiono aqui se há coisas ruins ou boas, porque o mau e o bom são julgamentos pessoais e, muitas vezes, não alcançam a plenitude dos ensinamentos que a vida nos revela. E, também, dentro da tão limitada significância do eu e de seus julgamentos egocentristas, há vezes em que não entendemos as mensagens que a vida dá.

***

Ontem o Nelson falou que um sobrinho dele, de Uruguaiana, tinha um cachorro que falava. Eu perguntei Como assim, falava? Ele respondeu: Falava! Tu falavas com ele e ele falava. Eu até agora não entendi, juro. Me perdi na comunicação e fiquei em silêncio... não sei nem se acreditei ou não... Hoje em dia tudo é possível mesmo... O fato é que este episódio me fez lembrar de dois outros, que também existiram, de verdade, por uma incompreensão comunicativa.
O primeiro é do padre, lá de Salto do Lontra, que num sermão aos fiéis da comunidade, falou: Quem não tem pecado que atire a primeira pedra!
De repente, da esquerda para a direita, em alta velocidade, meio tijolo de quatro furos acertou sua orelha com tal violência que ele caiu sentado. Socorrido pelos coroinhas, o padre levantou e viu o seu Bonifácio, um membro das antigas e que lançara a pedra contra o ilustre vigário. O padre, ainda desacreditado, mirou seu Bonifácio e falou: Seu Bonifácio, o que é isso? Vai me dizer que o senhor nunca errou na vida?
O seu Bonifácio respondeu: Dessa distância nunca!

***

O outro causo aconteceu em Uruguaiana mesmo. O guri, voltando de um passeio por Pelotas, chegou na fazenda do pai, um gaudério bonachão que só usava bombacha larga e facão de três listras na cintura. Era verão, e numa tarde quente o filho resolveu tirar a camisa. Para a surpresa do pai-gaúcho, o guri havia colocado um piercing na mamica direita.
O quiéqui é isso aí ô piá-de-merda?
É um pircin pai!
Pircin?
É!
Pega esse pircin e enfia no cú! - disse o velho.
E o guri foi lá e colocou o brinco no ânus.

É a máxima do Chacrinha, ou Chacrinismo, um movimento iniciado no século XIX e que outra hora explico melhor.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

NOS CONFINS

Quero deixar claro que nunca achei a Xuxa a Rainha das Crianças... nem dos Baixinhos...
Acho estúpida essa mania da TV criar super-ídolos. Mas mais estúpida é uma sociedade que não consegue conservar a cultura de não-massificação, a nobreza das histórias e dos sons, e permite que a maioria dos seus elementos caia na malha da idiotice. Na verdade o interesse do sistema está bem aí: manter a prole dos consumidores hipnotizados. Pra ele, o sistema, é legal ter reis... Pra mim, não.
Aqui, nestes confins, o rei nunca passou. Que dirá a Xuxa...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

AS LARANJAS DA VÓ DE SANTA ROSA


Eu tava de bangu semana passada e resolvi dar um pulo a Santa Rosa, visitar minhas origens. Um amigo meu me disse que Santa Rosa é a capital do mundo. Eu perguntei por que, e ele me respondeu, trazendo a solução sempre de pronto, na meada do seu raciocínio lógico: Qual é o futuro do mundo? As crianças! Quem é a rainha das crianças? A Xuxa! E onde nasceu a Xuxa? Santa Rosa!
Bom... Depois desta convincente explicação, cheguei. Santa Rosa já era pequena quando fui embora, agora parece menor ainda. Perdi todas as referências da minha antiga Santa Rosa e, nas ruas, não conheço mais ninguém. Aqui descobri que virei pelotense de vez. Ao menos por enquanto.
***
Mas o fato é que em Santa Rosa tem a maior concentração de idosos por centímetro quadrado... Ao menos é o que percebi. Minha mãe coordena um grupo de terceira idade aqui, tem dois programas de rádio... funciona, a velha. Então os coroas, por assim dizer, rodeiam ela de manhã à noite.
Tem uma velha aqui, esqueci o nome agora, que come como o 19º Batalhão (depois da saída de campo, acrescente). A cada 5 minutos tem que estar mastigando algo. É meio surda e a metade de audição que ela perdeu ganhou em curiosidade. Uma tarde dessas ela foi pro centro, perto do meio-dia, pegar a pensão dela na Caxa Econóómica, como ela mesmo diz. No caminho, ela passou pelo puteiro da Iara, que tava reabrindo as portas e credenciando as chinas que queriam trabalhar. Na frente do Vermelhus 27 tinha uma fila de polaca que dobrava a esquina, e a velha, muito curiosa, chegou pra puta que findava a fila e perguntou:
Minha filha, mescuita, pra quê essa fila compriida?
A puta, envergonhada, não soube o que responder. Deu uma gaguejada e falou: É pra pegar laranja numa árvore ali atrás, vovó.
A velha, que além de curiosa, faminta e mão-de-vaca adorava uma fila, achou uma boa ficar ali e pegar umas laranjas de grátis, como dizem em Santa Rosa.
Só que a tia Iara foi entrevistando as gurias todas até que entrou a velha na sala dela. A Iara, que em 55 anos de putaria nunca tinha visto uma candidata tão velha, foi logo perguntando:
Vovó... a senhora aqui? Mas a senhora ainda trepa, vovó?
Nóm... trepar eu nóm trepo mais, mais eu chupo que é uma barbaridade...

Juro por deus.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

PALAVRAS PERFEITAS

Lua Nova e eu tentando te desenhar
Tracei estrelas pra ligar os pontos
Diadema de cometas pra te enfeitar
E te dei brincos de planetas para andar
No espaço da madrugada
E encontrar
Na noite o teu endereço
Te encontrar
No espaço da madrugada
Para andar
De noite em teu endereço

Joguei pedras pra janela te acordar
Fiz escada com meu pensamento
Rapunzel me dá tuas tranças para morar
E teu sorriso de alimento pra ficar
Vivendo em Copacabana
E brincar
No teu castelo de areia
Pra ficar
No teu castelo de areia
E brincar
Vivendo em Copacabana

O Nena, o Nena, o Nena
Já é dia vem me dar um beijo
O Nena, o Nena, o Nena
Vem mimar o meu cabelo que eu deixo
De ser um conto de fadas
Que eu deixo
Seres conto de fadas

Dois chinelos da Bahia pra caminhar
Dei mil voltas na tua rua escura
Fiz um mapa do teu corpo pra decifrar
O caminho pro teu peito
Pinta aí
Vem colorir minha vida
Fala aí
As três palavras perfeitas
Pinta aí
As três palavras perfeitas
Fala aí
Pra colorir minha vida.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A GRANDE MATEMÁTICA


A grande matemática age, é assim
Que graça tem o jogo que não tem fim?

sexta-feira, 16 de maio de 2008

PROGRAMA DE ÍNDIO

O Caboclo contou pros guris e eu acho até que é verdade. Já aviso aqui, a vossa estimada senhoria, que este pequeno conto tem cunho... eu não diria erótico... diria bagaceira, porque a palavra só é feia por culpa da mente demente... pra mim, segue sempre palavra, em sua formalização ortográfica, substantivo simples, no caso da palavra pau.
Mas o fato é que um índio, em passagem de viagem pela cidade de Pelotas, chegou numa festa muito louca que rolava ali nas bandas do Porto. Todo mundo bebum, chapado... o exagero foi imenso que o índio voltou só de manhã pra casa. No caminho, ainda louco, encontrou o Jorge, que ia pro escritório.
E aí, índio, como é que estava a festa?
Bah, uma loucura que só, branco. E me chapei... todo mundo louco... eu e a mina naquele amasso. A mina chupando meu pau, eu chupando o pau da mina... era aquela putaria...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O OUTRO LADO DA PALAVRA


O OUTRO LADO DA PALAVRA é um livro-caixa que saiu de mim. Você não encontra em lugar algum, exceto comigo e com algumas pessoas que amo. Se vires um por aí, podes crer: esta pessoa o Duda ama.
Poemas soltos com artes próprias... Posto alguns no blog e finequa.

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

BEIJA-FLOR


Dentro da mata
abre-se uma flor
lembrei de você, beija-flor.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

NÃO FALEMOS DE FUTEBOL


Ô meu colorado
Perdeste e foste eliminado
Que ira...
Só medível com o amor que por ti tenho...

Essa cambada de perna-de-pau...
Que vontade de não dormir
Que raiva de rasgar o mundo
O pior é aguentar esses gremistas
Que já morreram há horas...

Foda-se tudo!
Vou fazer de conta
Que o futebol não existe...

FONDO


O ontem se escondeu no início do hoje
E se disfarçou de breves lembranças
Deixando de existir
Numa esquina do futuro.

O NÃO-SABER

Senhor Robertinho Moura?
Sim!
Muito prazer... sou Silvinho Azevedo, consultor de moda da Advanced Close.
Ah... muito prazer!
Sim... o prazer é todo seu... Assisti ao seu desfile no SPW.
Ah sim... e aí?
Achei um ultraje combinar gravata borboleta com camisa xadrez...
O quê? Me desculpe... então o senhor não entende nada de moda!
Como não!? Sou um consultor reconhecido internacionalmente... E posso lhe dizer que a tendência é chapéu Panamá e botas Choud Plangier.
Não mesmo!!! A tendência é gravata borboleta e camisa xadrez, seu ignorante!
O quê, seu réptil? Ignorante é você! A moda é Panamá e Plangier!
Borboleta e xadrez!
Panamá e Plangier!
Ôpa!!! colicenci... Meu nom é Zécarls e eu tô disimpregado! Podivê qui tô di pénichão... Queria sabê si os sinhô tem uma moedin pra midá?
Sai fora mendigo!
É... sai daqui, seu fedorento...

E o Zécarls saiu devagarinho, com aquela imensa sensação de liberdade que o não-saber proporciona. não tinha horário, não tinha certeza, não tinha respeito. Sequer tinha sobrenome, o Zécarls... Mas suas questões eram poucas, e isso o possibilitava ser pleno com suas esmolas.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

PROPERSI


Respondia com silêncio
Questionava com olhar
Dormia de olhos abertos
Ia às festas de chinelo
Ia às chinas de bouquet

Ria e espirrava alto
Sambava sem mexer pé
Mijava na pitangueira
Dava trocados pro Zé

Cantava sob o chuveiro
Comia alho no pão
Vestia jeans-camiseta
Compunha rimas tercetas
Ouvia disco do Jão

E quando morreu, tão moço
Levou consigo certezas
Convicções do que era
Detalhes de suas manias

E antes de entrar naquele
[túnel de luz
Olhou pra trás
E sem poder dizer nada
[sem ao menos saber quem realmente era
Sentiu que perdera tempo
Procurando por si.

MIN

Havia um tempo
Que já não havia
E que dormia escondido pelas sombras de outrora
Jazia fora
Por nuvens pretas
Que às lunetas, marcavam água
E se era agora
Já também não respondia
Pois era fria
Sua esperança...

Naquele dia
Não quisera nada
Nem um suspiro, quiçá poderia
Sair da cama
Era, sobretudo, árduo
Porque parecia que só era pouco
Quase um quase, nada

Mas aquela luz
Que entrava pelo buraquinho daquela janela
Se fizera bela
Como vida nova
Abriu um olho
Respirou manhã
E o seu filho se fizera estrada
Por onde, até hoje correm,
Todos os minutos
Da vã madrugada.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

POSITIVIZUM


Leva o pólen do teu sonho
Para a manhã que brilha
Deixa ser o teu perfume
O cheiro do ar da tarde...

Zunzunzum, que maravilha
Sentir que vivo
Que vivo
Vivo...

E a cada vôo
Dum dia novo
Carrego o pai
Carrego o filho
Porque sou elo
Entre o ontem e o agora
E que lá fora
São sempre flores...

MÁXIMO PODER


O Imperador bateu no Ministro que bateu no 1º Secretário que bateu no Chefe Departamental que bateu no Adjunto que bateu no Estagiário que bateu no Escravo que bateu no Cachorro que não bateu em ninguém...

FÉRIAS


Tempo... desapareça.

DUDÁRIO DE BORDO III

Acordei de cu-virado hoje! Decidi que este papo de DUDÁRIO DE BORDO é uma frescura, coisa de adolescente. Parei!
Em resumão, a viagem foi legal, o show foi legal, o mestre Batista foi fundamental. Alguns egos artísticos têm que ser trabalhados, mas não sou eu quem vai ensinar: é a vida. E pt saudações, como diria o velho João.
E se tu quisé, bixinho, conhecê a Bahia, ti vire e vai pra lá, que não sou eu quem vai te contar, seu priguiçoso da porra. Que hoji eu to arretado, vixemaria.

E viva o frio!

domingo, 4 de maio de 2008

DUDÁRIO DE BORDO II


Acordei às 3h30min. Ainda no hotel, tomei um banho hiperquente... Chovia e continuava frio... era só mais uma prévia do ciclone que se aproximava. Embarquei às 6h rumo a Salvador: subi no inverno, desci no verão.
A viagem foi tranqüila, mas não consegui dormir. Cheguei na Bahia às 9h40min com 32ºC e segui direto pro hotel, na rua Chile, no centro histórico da cidade. Larguei as coisas no quarto e fui dar uma banda, como diria o gaúcho.
A vista é linda e o mar cerca tudo o que vejo. O Pelourinho é aqui do lado... Nas ruas, o resquício da colônia de exploração: muita gente pobre (Salvador é cheia de favelas) e, na noite, os vendedores ambulantes agarram turistas lhes colocando colares e fitas do Senhor do Bonfim... Só ontem ganhei mais de dez... Comprei um pau-de-chuva e um tambor pro Johan, uma bolsa e umas sandálias de Salvador de Bahia só pra imitar o Drexler... Mas aqui o que mais se adquire é a cultura: a negritude é linda e forte... os orixás andam nas ruas e tu nunca sabes qual é real e qual é mitológico.
De tarde, tive o incomensurável privilégio de construir um sopapo com o mestre Batista (mestre Griô). Cara... não é pra qualquer um: eu, em Salvador, construindo sopapo com o mestre Griô. Ficamos até as 21h na função. Depois fomos jantar num lugarzinho simples, aqui pertinho, mas muito amoroso, com feijão delicioso e uma pimenta viraku. Depois do banho, fui tomar uma gelada na rua antes de dormir com os anjos. Passei pela praça do reggae, onde conheci algo muito estranho, que denominei de contra-racismo. É que depois do processo histórico de exclusão que os negros sofreram (e ainda sofrem), há lugares onde os brancos são mal-vistos. Eu cheguei na praça do reggae e o cara me disse: Pode entrar mas não vai pra lá. Eu perguntei porque e ele me respondeu que iriam me tirar tudo. Comprei uma cerveja e fiquei de canto, vendo a galera curtir. Excluído, pensei nos escravos... pensei nos crimes que fizemos contra uma raça tão linda que até hoje é explorada...
No fim daquele longo dia, no retorno do hotel, mais um ambulante me pegou. Me deixou uma fita e um colar e me levou os últimos 10 pilas que tinha. Era hora de voltar pro hotel e esticar o corpo.
Quando cheguei, o marzão da esquerda me fazia procurar a África. Agora sei que estou bem em cima dela.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DUDÁRIO DE BORDO I

Chegamos a POA às 9h. Chovia fino, diferente da chuva de agora, que trouxe o frio a cada gota. Uma galera já embarcou rumo a Salvador... Eu embarco amanhã e agora aguardo no hall a segunda turma que viaja.
Dormi um pouco para permitir que minha alma encontrasse o corpo... parecem estar se acertando... A única parte do meu corpo que ainda reclama são os pés... sempre gelados e úmidos... Da alma, nenhum reclame, embora ela esteja alerta aos ensinamentos da humildade e da simplicidade.
Legal a forma como o Alexandre e o Caio trabalharam e viabilizaram tudo isso aqui... São guerreiraços e têm futuro certo na produção cultural: organizar uma viagem com grupo grande não é fácil... E ainda tem gente que ainda pergunta Quem vai me dar água no palco???
Édifis...

Bombas de amor... nossa missão é ser feliz!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

O OUTRO LADO DA PALAVRA

FALAR ATÉ PAPAGAIO FALA

Zé Pereira visitou o mundo das certezas. Quando voltou ao convívio das gentes, encontrou Aragão, que de pronto o questionou Aí Zé, que descobriste lá no mundo das certezas?
Descobri que a pergunta Será? desestabiliza todas as convicções... mas aprendi também que a melhor resposta para a pergunta Será? é Não sei!
Será? perguntou Aragão, desconfiado.
Com toda certeza! respondeu Zé Pereira.

E o Seu Peixoto, que estava de butuca enquanto esperava o ônibus, e que, diga-se de passagem, nunca visitara o mundo das certezas, concluiu, sem carecer de seu Nível Fundamental na E. E. de 1º e 2º Graus, que a certeza sem aplicação fática é a maior ilusão dos delirantes.

terça-feira, 29 de abril de 2008

NENA E JOHAN


Estar com vocês é tudo...
Estar com vocês é luz dentro do escuro...

ESPELHO ENEVOADO



Recebi esta semana do Paulinho um livro muito legal sobre Os quatro compromissos da filosofia Tolteca. Eu estava lá no Kaydara, um espaço muito bacana e com uma energia muito forte aqui na Colônia pelotense... vale a pena conhecer, diga-se de passagem. E a vida, entre suas brincadeiras, me fez essa.
Dentro da casa da Cristina, eu estava passando pela frente da geladeira e uns dizeres, na porta branca, me chamaram atenção. Eram os Quatro compromissos, que li e gamei na hora. A Cris me falou que vinham de um livro que ela utiliza com seus alunos e indica a todos que pode. O Paulinho chegou junto e me disse: Eu tenho este livro. E cá está ele, agora, na minha mão. Será minha cabeceira na minha viagem a Salvador... sei que ele promete muito, e já comecei, antes mesmo da viagem, a dissecá-lo e, pelo que já li, percebi que Don Miguel Ruiz estava sintonizado com o verdadeiro entendimento.

Repasso aqui, ipsis literis, aos olhos teus a orelha dele:

1. Seja impecável com sua palavra: As palavras têm um imenso poder e não devem ser usadas de modo leviano. Diga apenas aquilo em que acredita, usando corretamente sua energia. Fuja de mexericos e de comentários negativos.
Meu amigo Nestor Campos diz que o ar é sagrado, é vida. Concordo plenamente. E se o ar representa toda esta forma energética de mantermo-nos vivos, diga-se vida em essência, como podemos exalá-lo de modo depreciativo em forma de palavras? Expire vida com amor.

2. Não leve nada para o lado pessoal: Quando alguém fala de você, está na realidade expondo a si mesmo. Não absorva insultos e não se deixe levar por adulações. Aprenda a se tornar imune às opiniões alheias.

Sejamos o nada. Eu falava com o Kleber Ramil sobre minha teoria que denominava A inexistibilidade do eu... Eu nunca soube ao certo o que eu queria dizer (muito menos ele, claro), até o Don Miguel me traduzir. É que o todo está no éter, como uma onda de rádio. Sintonize e capte!

3. Não tire conclusões: Atenha-se apenas à realidade imediata e concreta. Seja sempre claro e transparente e exija que os outros também o sejam, ignorando o que há de nebuloso ou mal-explicado.
Bagwan Shree Rajnesh diz que só deus julga, pois tem o conhecimento do todo. Nunca teremos o conhecimento do todo e isto impossibilita o julgamento de forma correta, fazendo com que qualquer julgamento seja equivocado e injusto com o todo... Não julgueis é a frase.

4. Dê sempre o melhor de si: Em qualquer circunstância, mesmo nas situações mais insignificantes, faça o melhor: nem mais nem menos. Rejeite sacrifícios ou esforços extenuantes: faça o que puder, da melhor maneira possível.
Viver plenamente significa respeitar a dualidade e o processo individual de crescimento espiritual, é entregar-se em plenitude e coerência entre pensamentos, sentimentos, palavras e atos, como diz o Nestorzinho.

Sempre em frente, que atrás estamos nós mesmos...

terça-feira, 22 de abril de 2008

CARTA AO ANÔNIMO

Prezado anônimo

Gostei muito do seu comentário postado no meu blog referente ao texto EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA. Adoro críticas... principalmente as construtivas, mas as destrutivas eu também gosto, pois espremo elas e tiro o suco contido... às vezes amargo, às vezes doce, mas sempre com o sabor picante da verdade. No caso do teu comentário, verdade irada... mas a tua verdade. Contudo, tua truculenta tentativa de te comunicares me obrigou a tecer uma resposta, confeccionada por partes. Vamos a ela?


C: Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA":
R: Infelizmente, prezado anônimo, não assinaste teu comentário. Isso me faz concluir que eu te conheço e tens medo de me falar o que realmente pensas. Preferes manter a falsidade de nosso relacionamento... sem problemas. Mas não tenhas medo de assumir tuas idéias, caro amigo desconhecido. Sofres te escondendo... e isto impede que sejas íntegro com tua ideologia, íntegro com tua própria ira, enfim... isto pode fazer com que remoa teus sentimentos e tente, em outro momento, atingir uma outra pessoa. Fique sempre à vontade para te dirigires a mim, da maneira que for, pois aprendi a manter as discussões no plano das idéias... isto nos permite aprender com as teses certas e com as teses equivocadas também. Mas se quiseres assinar as próximas, poderíamos dialogar e, de repente, ajudarias efetivamente no meu crescimento.

C: Você, como o casal, também gosta de falar da vida dos outros.
R: Pois é... aqui realmente me pegaste. Mas eu sou um cara sensível, acredite. Mentalizo sempre o bem e tento, ao máximo, evitar falar de violência, de tragédias... às vezes peco e me pego comentando algo sobre a vida de alguém... mas na hora, na hora mesmo, juro, aquela voz do subconsciente (ou serão meus protetores, não sei) me manda calar, e calo. Me sinto mal depois de falar sobre alguém e isto tem me ensinado a ficar mais quieto, a engolir minhas verdades, que muitas vezes não são... a não levantar tantas questões... Porque do outro lado dos comentários está uma pessoa igualzinha a mim... E isto é lição pra ti também, amigo anônimo. Quem me conhece sabe que sou sincero, que o silêncio realmente tem sido meu norte... Mas tenho certeza que erro muito, e seguirei errando até morrer. Porém, aprendo a cada momento a usar as pedras dos meus equívocos na escadaria de minha evolução, baseada na plena convicção de que sei menos a cada dia e que palavras restringem muito os sentimentos....

Concordo com você e pensarei sobre isto, prometo.

C: Acho que o problema é esse: uns acham que estão ACIMA da merda toda, num pedestal de ESPIRITUALIDADE QUE SALVA!

R: Querido anônimo (se me permites chamá-lo de querido, claro). Felizmente não vivo na "merda toda", como disseste. Sou um cara sortudo e muito privilegiado, acredite. Tenho uma família linda, uma gata maravilhosa (realmente uma princesa) e um filho amado por todos que nos cercam, sensível e inteligente. Neste feriadão passamos arrumando a hortinha lá de casa, fazendo artesanatos, escutando músicas legais. Peguei o nascer do sol na Lagoa sexta-feira... precisavas ter visto. Ou não... nem sei quem és!!! Mas se vives na "merda toda", precisas urgentemente mudar os ares, amigo. De repente precisas amar. Ou deixar-se amar. A vida é tão linda, cheia de grandes significados em pequenas coisas... mas apenas para quem consegue ver. Longe de mim querer estar acima ou abaixo de qualquer pessoa, prezado anônimo. Tenho dezenas de ídolos... meu pai, minha mãe, meus amigos... Apenas sinto que a insensibilidade que moveu a humanidade até aqui tem que ter um fim, e nisto espero que concordes comigo. Também se não concordares, não tem importância... Te respeito no que pensas e torço para que sejas harmonicamente feliz.

Outra coisa que divergimos nesta pequena frase de teu raivoso comentário: a espiritualidade salva sim... Ao menos eu creio que salve. Mas não é um salvamento desesperador, tipo daqueles das grande enchentes. É uma iluminação, e varia de pessoa para pessoa. Às vezes sou chato, falando de coisas que acredito. Mas já percebi isto e concluí que só devo falar das minhas coisas da não-matéria quando questionado. Nunca mais falarei ao léu. Exceto no meu blog, claro, pois é meu espaço de exercer meu jus esperniandi e meu jus comunicandi. Mas aí o ônus do questionamento é invertido, pois não obrigo nem convido ninguém a vir aqui. Inclusive tu, querido anônimo: vieste por livre escolha... Não gostate? Tens todo direito de não gostar. Me criticaste? Ótimo! Volte sempre que a casa é tua... espero poder ter te auxiliado em algum momento... Mas sigas procurando... estamos todos na busca, e é assim que deve ser.

C: Menos arrogância, por favor.
R: OK! Juro que tentarei ser menos arrogante. Não fiz por mal. Às vezes julgo minha verdade como verdade absoluta... é que estou aprendendo, te falei. Não desejava ser arrogante, apenas questionador. Gostaria de lançar críticas ao ventilador para que as pessoas, regidas pela sensibilidade e auto-crítica, pensassem a respeito. Não queria ter te ofendido. Deves ter muitas certezas absolutas e de repente não precises de mais nada... Eu ainda não cheguei lá... nem quero. O conhecimento é morto... não quero estar aprisionado em verdades retilíneas, que impedem que eu concorde ou discorde de todas as coisas. A sabedoria é que liberta, e é dela que carecemos, prezado anônimo.

C: Você não vê, pois precisa humildade para isso.

R: Amigo anônimo... isto é uma luta. Me achava relativamente humilde, até ler alguém dizer que não o sou. Pensei direto no Diógenes, um sufi que andava nu como os animais e que por não ter nada, tinha tudo. Lembrei de Gautama... Nunca irei me comparar a eles, porque vivo num mundo dual, sou um pequeno pecador... um grande buscador. Ajudo os que posso e também sou ajudado, e muito. Não sou um avatar... sou um humano que peida e caga. Adoro leite condensado, torrada de queijo com alho, adoro sentir a água gelada na pele... Gosto de passear com meu filho no velho fuscão 83... Não tenho vergonha de minhas roupas velhas, pois são só casca... Sei pedir desculpas e dar beijo em homem... não tenho preconceito nenhum contra credos, cores e sexualidades... respeito toda forma de expressão amorosa e sincera... Não como nenhuma carne por respeito aos seres... parei de beber e fumar, por respeito a mim e minha família... cumprimento o prefeito da mesma forma com que o faço com o guardador de carros... nunca maltratei ninguém... nunca ofendi pretensiosamente alguém... Mas ainda assim concordo contigo: preciso mais humildade... Sempre mais. Porque o ego sempre acha brechas pra se manifestar... Mas não entenda como maldade, por favor... são os rastros do que também és...

C: Você precisa sentir-se parte da raça humana, e você escreve como se fosse superior: cegueira, ilusão.
R: Prezado anônimo. Até que enfim chegamos ao final dos teus quesitos quanto a minha pessoa. Embora aí do Mato Grosso onde te encontras não consigas me ver direito, exceto minhas letras, adorei teres me questionado. Te peço que se minha resposta novamente te ofendeu, desconsideres. Posso (e talvez deva) estar mais uma vez redondamente enganado. O fato é que existo, e se existo, expresso. Não quero que me julgues melhor ou pior agora... nem preciso, para ser sincero. Quem julga se desaponta por desconhecer o todo.

Dizes que tenho que me sentir parte da raça humana e lembrei de certas coisas... do cara jogando bituca de cigarro no chão... do outro dando um soco na cara do um... do caçador atirando num filhote de elefante... do cara rindo sobre a prostituta... dos lenhadores derrubando árvores imensamente lindas... lembrei do motoqueiro me ofendendo no trânsito... lembrei da Guerra no Iraque e dos assassinatos que passam toda hora na TV. Lembrei até de meu texto EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA ... aquele que te incomodou... acho até que vou tirá-lo do ar... pois podes ter razão e eu não... Mas desta humanidade, violenta e virótica, que chamas de "merda toda", nunca farei parte. Não escrevo como superior: escrevo orientado por uma cosmovisão, que questiona erros que eu mesmo cometo, que questiona coisas que acredito que possam melhorar... dentro e fora do meu lar... dentro e fora de meu umbigo cabeludo. Se sou cego, oriente-me, se puderes, para que eu encontre a luz. Se me iludo, deixe-me iludir até onde posso... E previna-se contra as tuas ilusões... Eu sou livre para iludir-me e crer no que desejo. Sou livre para errar... Mas lembremos: o plantio é sempre livre, mas a colheita é sempre obrigatória.

E para finalizar, querido anônimo, se te faz bem, podes me detestar. Se quiseres ofender, fiques à vontade, repito. Agradeço de coração por teres me feito perceber mais uma vez o quanto preciso evoluir e espero que voltes a comentar meus escritos e minhas ilusões. Mas te aconselho, meu amigo sem nome, que preste atenção também à tua caminhada e não te percas pelas estradas sinuosas da ira e da vingança.

Com amor

Duda Keiber

segunda-feira, 14 de abril de 2008

EU GALÁCTICO


Flutuo... minha essência sobe enquanto o corpo ainda dorme pela cama larga. Vôo, no sentido alado da palavra, ultrapasso os telhados da cidade e vejo estrelas pelo chão da Terra. Mas o meu ver, neste estado cru de ser, não é o ver para fora da cara: é uma visão pentadimensional, de 360º... um entendimento silencioso do nada, sentido contido do todo, imerso na imensidão do tudo, na infinita impermanência das coisas que, ao mesmo tempo, são ilusões de verdades mortas.
Vejo a lua... tão bela e, ao mesmo tempo, insignificante num universo tão vasto. É pedra na beira do rio... Poderia vencer as barreiras até a 10ª dimensão, onde se originam as energias que movimentam o cosmos e onde as luzes realmente nascem, mas resolvi apenas pairar, como uma gaivota contra o vento da Lagoa, e observar a pedra azul e verde que chamamos casa. Também pequena, como costumam ser as coisas perto do imensurável, mas repleta de questões inúteis, que brotam dos dogmas que brotam das mentes que brotam da sujeira acumulada na genética humana, vestida da feiúra das roupas e crenças incertas dos não-animais.
Se era noite ou dia, não recordo. Até porque isto é fato limitado num mundo que gira entre a luz e a escuridão, significado-mor implícito em nossa passagem na carne... sair da escuridão e alcançar a luminescência... Mas então os humanóides, que entre todos os desejos incabíveis gostariam de ser deus, sem entender que os deuses neles moram, não percebem que entre suas doses de anti-depressivos flores nascem, que entre as bombas no Oriente o amor floresce, e que o amor é mais que o sexo e a posse... Não percebem que as muletas de seus valores os aleijam e os cegam e que a essência de suas vãs procuras está na simplicidade de seus corações... que o poder é ácido e que as fronteiras não existem fora de suas cabeças... que o conhecimento é diferente da sabedoria, pois um aprisiona, o outro liberta... e entre tantas coisas que eles, humanos, não entendem, é a necessidade do silêncio, professor calado... porque se há um universo fora, há um universo dentro. E os ETs, que são procurados nas alturas, pedem atenção de dentro do peito.
E antes que eu desça na ilusão medida da velocidade, noto que o medo, contrário exato da palavra amor, é o exército a ser batido. O perdão, grandioso atalho da leve nobreza, conduz à paz, ar puro que pra tantos inexiste. E a preservação da espécie, que por ser virótica, denigre, só é possível quando se fizer entendido que cada unidade é outra igual unidade é outra igual unidade... divina.
Tudo que pode morrer, morrerá!

FRIO


Amanheceu inverno...

NOVINSTANTE


Um amigo me disse que, na vida, às vezes a gente ganha e às vezes a gente perde. Mas o que é ganhar? O que é perder? Quando eu condiciono a minha mente ao escrotório santo de cada dia, trabalhando miseravelmente por uma aposentadoria, estou ganhando ou perdendo? Minha mente vive no passado... minha vida vive no futuro... e as duas parecem nunca se encontrar. Talvez eu mesmo esteja deslocado do que sinto, de onde estou...
Mas na Princesa é assim: até meus pensamentos cheiram a mofo: meus pensamentos ficam velhos a toda hora... de onde venho? Pra onde vou? Sou uma réplica mal feita de tudo o que desejo, e se desejo, sofro.
Hoje tenho dois pilas no bolso e nem sei quem sou... Desejava ser uma pedra das ruínas, que envelhece sem questões... mas sou apenas carne, e o que pode morrer, morrerá! Às vezes me culpo por beber em uma esquina, e outra ambulância passa a mil pelas ruas da cidade.
Mas o que existe é só um somatório do que sempre houve... É um quociente do que ainda não há... e sigo mínimo nos poucos problemas, que se acabarão no fim do tempo, pai de todas as respostas. Sim, porque toda materialidade é ilusória, e os vermes esperam a todos, ricos ou pobres, sem distinção...
Não sei o que a minha mãe esperava, na sua vã expectativa alheia... Sou eu e todas circunstâncias... E uma tribo canta na Amazônia, entre a selva de ninguém: eu aqui, comendo o carbono de nossas angústias, vendo o concreto se reproduzir. Procuro, nas moedas derramadas, alguma que sirva como leite... alguma que sirva como ar... sou apenas a ilusão contínua de uma chegada... um nome preso ao registro geral.
O que busco? Talvez seja mera fuga... uma fuga abstrata de tudo o que me oferecem, pra chegar ao nada, completo conceito.
Não sou jeito... não sou forma... sou mais um espírito que entre esquinas perambula, vendendo almas e verdades que talvez não sejam, trocando por salsichas minha liberdade... querendo ser o outro... querendo estar além...
E os deuses, nos altares, não me escutam... quiçá se fazem arte, e a arte existe para que a realidade não nos destrua. Então outro sol amanhece, e eu me iludo ser o mesmo, enquanto rugas nascem por todos os cantos... Enquanto isso, atiro, todos os dias, pedras na lua do mundo que acredito...
Talvez o outro, que joga o pesado níquel das esmolas, amanhã desconsidere tudo... seguirei aqui sentado, sendo o novo... sendo o velho... sendo o sempre... Porque o tempo nasce e morre a cada novo instante...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

RAJNEESH 75


A vida move-se em direção ao futuro, a mente move-se em direção ao passado. A mente está sempre fechada na experiência que já aconteceu e a vida está sempre aberta para a experiência que jamais aconteceu antes. Como podem se encontrar? Como pode haver alguma possibilidade de encontro entre elas? Então, aos poucos, a mente torna-se completamente fechada em si mesma. Não apenas isso, a mente até mesmo torna-se temerosa de ver o que a vida é.

sábado, 15 de março de 2008

VIDA E POEMA


O Sol
Troca de turno com a Lua
Para alegrar minha retina...
Enche de cores o mundo, bendito Sol,
Enquanto a Lua traz estrelas pontilhando o céu

E o que resta aqui embaixo?
Ao não poder tocá-los, os mantenho na ilusão
Onde posso tudo
Até mesmo encerrar sem lógica
A vida de uma poesia...

quarta-feira, 12 de março de 2008

COISAS ANTIGAS


Não gosto muito de coisas antigas
Principalmente das que sobrevivem ao tempo

Os jovens velhos,
Os conhecimentos inúteis,
[arcaicos caminhos a lugar algum
Pontes tridimensionais a objetivos individualistas...

A feia mulher bonita,
As notas amassadas de dinheiro sujo,
O sarcasmo do poder...

Tudo tão cheio de pó,
Um acúmulo de pensamento estático
Que até nas coisas minhas têm poeira...
Por onde deixo um rastro derramado
Do que fui
Até o que sou.

DE MANHÃ


Acordava sem falar uma palavra
Como todo mundo acorda
[de boca fechada...

Na frente do espelho
Via que era apenas
Mais um pedaço de nada,

Escovava os dentes
Pra tirar da boca
Os sonhos de tolo, pontes de esperança
Que, na realidade,
Eram apenas dias
Fábricas de rugas...

Beijava seu filho
Como se seu fosse
Brindando o eterno
Que reproduzira

E sua meninice
Que também fugiu de casa
Foi parar no beco
Foi parar na boca
[de ruas banguelas,
mesas retilíneas

Foi pro fim do mundo
Começo de tudo,
Onde encontrara, antes mesmo do meio-dia,
Um tempo novo, de meros pecados

E fechou portão
Seu corpo morria
Uma morte doce
[e intransitiva.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

SINCRONICIDADE


E-postila de Calendário Maia
http://cmtzolkin.blogspot.com.

GLUB


O mal é o que sai da boca do homem...

ESCALASSAMBA


Manga; Josimar, Júnior Baiano (Betão), Odivan e Cafuringa, Vampeta, Ronaldinho Gaúcho, Pelé e Valdomiro (Elivélton); Romário e Jairzinho (Viola).

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA...

Eu não curto mesmo assistir televisão. Lá em casa só passa desenho animado que o Johan gosta... Tem uns programas infantis legais na Cultura e tem uns canais de animação que ele se amarra. Mas esses dias, assistindo ao Galvão Bueno narrar uma partida de futebol, decidi fazer uma eleição, a la Oscar, relativa à mídia massiva e idiotizante: A Melhor Boca Fechada da TV Brasileira. Concorriam o próprio Galvão, favorito absoluto, mas junto dele estavam a Ana Maria Brega, com seu "menas açúcar"(eu ouvi, ninguém me contou), aquela menina da MTV, toda tatuada, que só fala em paucueboceta, em dúvidas vulgares sobre uma coisa linda que é os fluidos energéticos corpóreos, o Jairo Bauer, um babaca meio fanho que só tira dúvidas sexuais de uma mandizada perdida, erotizada pela fábrica de imbecis consumidores, o Faustão, que é um chato de galocha, o carinha feliz da Globo, do BBB, o programa mais imbecil e psicótico da TV, que unifica os idiotas de dentro da tela com os idiotas de fora (Bial o nome dele, lembrei), tem aquela Angélica, que nem sei se está viva, mas nunca mais saiu daquele filme dos Trapalhões... Olha... vou até parar por aqui, porque senão passo a noite inteira...
E olha que eu não vejo TV...

***

Saí agorinha do bar do Alex. Comi um tradicional pastelão de queijo e tomei duas Brahma Extra, coisa que eu não fazia há tempos. Atrás da mesa em que sentei estava um casal, que, fumando e bebendo, discutia um assunto chato, da vida dos outros, e atrapalhavam a audiência do jogo do meu colorado Internacional.
Mas o produtor que vende a alface por trêsecincoenta e gasta vinte mangos de gasolina, ele não se importa de vender na feira os produtos que ele mesmo produz por quarentacentavos usando o adubo natural... dizia ela.
Mas tu não entende é que o colono que produz lá no interior do Rincão das "Rocha" ele quer ter um lucro líquido e bruto pra poder comprar as "coisa" no mercado, na venda, na loja, pro aniversário do filho... respondia ele, numa discussão alta, chata e infinda...

E o Inter lá, metendo pressão.

Caralho... pensei eu... não calam a boca, vixemaria! Quemimporta, São Judas Priest????? Somos nós e nossas circunstâncias!!! Me dê uma saída pro mundo que não seja o desapego aos nossos egos e vontades aprisionantes... A verdade é uma prisão... Um espelho quebrado... O que não me afeta, não discuto.

Não achas, Keiber?

Caralho fedaputis... Me chamou... o magrão me chamou...

Como é, respondi simpático.

Tu não acha que se o produtor... assim... o cara planta couve... eu gosto de comer couve com feijão (meio bêbado, da boca dele voavam gotas de saliva na minha direção)... tu não acha que é melhor pro produtor vender pra mim do que vender pro atacadista, que mantém duzeniscincoenta "pessoa" trabalhando e que precisam se sustentar enquanto que eu fico na minha casa falando...

Deusdocéu... quase me deu ânsia...

A humanidade presa em suas questões tridimensionais... Vivendo como se nunca fosse morrer e morrendo como se nuca tivesse vivido...

Por cima de minha cabeça, o Inter era banhado naquela fumaça cinza do Hollywood vermelho... A fumaça que representa a cegueira da racionalidade humana.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ZUVUYA

Estive na quarta dimensão
Nas ondas do Zuvuya
Se voltei ou não, nem me importo
Se estou vivo, nem sei
O fato é que há um mundo todo fora deste blog
E as molduras são pras tintas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CLAUDINHO NÃO QUER MORRER

O Claudinho é maníaco-depressivo. Eu demorei pra descobrir isso, pois ele tá sempre rindo, muito simpático e querido... querido mesmo. Ele é tão querido que nessa semana tentou se matar de terno e gravata pra não dar o trabalho de sua mãe vestir defunto. Por Deus! Mas o plano dele deu errado e ele segue vivo.
Isso me fez pensar numa coisa, mais especificamente um verbo, que norteia todo o desenvolvimento da humanidade, sapiensamente falando. Trata-se do querer, verbo transitivo direto, lume dos ideários. Sim, pois o homem moderno consegue tudo o que quer. Isto é fato! Claro que o querer pode ser afetado pela necessidade, mas nunca, em sua essência, deixará de ser querer. O querer é a partícula imaterial que estimula a ação. O querer é o primeiro passo para que o cara levante da cadeira, mude um canal de TV, tome um banho de chuva, destrua florestas, atire na mãe... E o querer não tem nem oposto: não existe não-querer. O não-querer nada mais é que o querer a outra coisa.
O querer é a semente, e a semeadura é livre. Contudo, a colheita é obrigatória. Quando o homem quer poder, colhe desigualdade. Quando quer concreto, colhe destruição. Se quiser carne e fumo, colherá câncer. Agora, se quiser amor, colherá parceria. Quando quiser respeito, colherá valores. Se quiser igualdade, colherá unicidade.
Não é o mundo que tem que mudar: é a vontade do homem. "Quando a gente muda o mundo muda com a gente"... E pro homem, com seu grave defeito da racionalidade, conseguir transformar o seu querer, deverá mudar primeiro a sua própria essência axiológica e sua relação com o todo.

Porque se eu não me engano, o Claudinho não quer morrer.

DEUS CONSTANTE

Sente o agora
este amanhã em movimento
feito apenas de segundos,
como os tijolos na parede
que quando olhas
já se foram
acontecer noutro lugar

ah... e que presente este agora!!!
que cá, entre os ares respirados,
não consegue descansar dos planos
nem despir as vestes do passado
e, na imensa angústia de quase inexistir,
sustenta a essência humana acumulada

porque o agora,
que se refaz a cada instante
[à sombra de um gerúndio terminado,
inspira ao átomo a próxima atitude

talvez quisera, ele mesmo, agora,
ficar de cara por não ser lembrado
e ir morar nos andes, numa oca inca,
na solidão eterna
de um deus constante.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

HAVE A LITTLE FAITH MY BROTHERS

Temos que ter um pouco de fé, meu irmão... Um pouquinho mais de fé...

Dito isso a galera toda da igreja levantou vibrando, como se fosse uma tribo se energizando num rito fantástico. Eu fiquei me perguntando, do outro lado da TV: um pouco mais de fé em quem? Deus vive de saco cheio de tanta falsa fé, de gente enchendo com pedidos materialistas, com preces por casamentos e por infinitas coisas e coisas que nunca completam o grande vazio do ego, ouvindo promessas vãs... Deus, O Grande Mistério, Alah, Jeová, como queiram chamar, já fez a parte dele, distribuindo harmonia natural pelo cosmos para que tudo fosse, simplesmente fosse, acontecesse. Inclusive nós...

Temos que ter fé nos homens... O mesmo homem que devastou a natureza, que joga duas milhões de garrafas pet por segundo no lixo, o grande extintor das espécies, que em 100 anos transformou a harmonia em caos, que pensa a modernidade e progresso como um monte de níquel e esquece de todo o resto, que polui os seus jardins e sua água... Devemos ter fé no homem carnívoro, que, por irresponsabilidade consciente, manda milhares de seres para o abate, colaborando com a poluição, com o desmatamento, com o carma sanguinário que ainda paga pelas mortes deste e doutros séculos... Nós temos sim é que ter fé no homem bélico, que solta bombas em escolas e hospitais, que atira na cara de irmãos em troca de uma passagem de oleoduto, em troca de uma propriedade roubada, em troca de poder, e esquece que não existe poder em um planeta em ruínas. Precisamos crer no homem, que se esconde atrás de leis e garante sua lisura e honra com cartões de crédito, que ainda estupra as índias dos semáforos, que paga para matar, que mira seus objetivos em seu enriquecimento ilícito e que engana os que o amam...
Eu acredito no homem. Acredito piamente, acima de tudo, que o homem terá a grande capacidade de despertar. Acredito que o potencial racional, o livre arbítrio e a consciência atuarão lado a lado com a harmonia da Terra e de todos os seres, enfim. Creio no novo homem, que usa a linguagem da pureza e da ingenuidade, a linguagem do amor e não a da vaidade, do medo, da ganância. E talvez nem consigamos salvar nosso planeta, nossos filhos, nossos amores e pais... Talvez termine tudo e morramos de sede... Mas eu acredito, nem que seja no último segundo antes de um grande meteoro atingir a nossa nave, tardiamente, mas eu acredito que o homem perceberá, em sua “racionalidade moderna”, que o caminho da paz, da sustentabilidade e do amor incondicional não é esse em que trilha sua história.

EU E TUDO

Uma manhã fria
Os cavalos comem lixo entre o pasto
E o sol, com vento e nuvens,
Nem parece estar ali...
O tempo, que se nos vence, mata
Procura coisas pra fazer
Em sua ampulheta infinda do existir
Andando, repito em silêncio o que eu já não sabia
E as frases de um novo agora
Registram nas estrelas o que compreendo...

Penso e logo existo e logo penso novamente
Existo quando existo nunca
E sempre indo, como a areia do Saara,
Me transformo em vidro, me transformo em mar,
Me transformo em sombra e luz
Porque de fato sou
Eu
E Tudo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

NOVO DE VELHO

Eu estudei Direito na UFPel até a metade do 4º ano (8º semestre). Fui da turma do Lato Sensu, que ficou marcada pelo seu direitismo exacerbado e pela ganância de uma gurizada branquela, que ria das tragédias e contabilizava em moeda a justiça, que eu particularmente chamo de hipocrisia formal. Claro que tinha gente boa lá, como o Betinho, o Rafa, o Alex Mala, o Nico e alguns outros, de se contar numa mão e meia. Já dos professores, pouquíssimos se escapariam da forca no meu sonho libertário. Sorte deles que já saí desta onda de rancor, muito pelo contrário: até agradeço pela estupidez deles, pois foi o que me fez cair na real e me mandar de lá.

Eu pensava que o 3º Grau, a academia, teria de ser menos ortodoxa, arcaiaca, preconceituosa... Sabia que algo esperava por mim. Foi então que passei no Cinema, 1ª turma da mesma Universidade. Eu iria estudar arte, caraca!!! Tudo se encaixou... Mas ontem, no final do 2º semestre, fiquei pensando sobre o velho e o novo, pois percebi que pouca coisa mudara em relação ao Direito e que, afora as pessoas, muito mais simples, inteligentes e queridas, o método arcaico de ensino segue como regra absoluta. Sem falar no sistema educacional verticalizado e da distância abismal entre o professor que manda e o aluno que obedece, com raras exceções, no caos do ensino público, sem verba, sem interesse, como migalhas para a massa pobre.

Passei em duas cadeiras, de um total de sete. Reprovei em cinco por infreqüência, como se minha presença física em aulas muitas vezes monótonas e improdutivas fosse critério para avaliar meu conhecimento. Sim, pois nas duas cadeiras que passei fiquei com uma das maiores notas de toda turma, embora saiba que é ridículo dar notas a alguém que busca conhecimento e cresceimento. O fato é que há professores que ensinam o que nem sabem, exercendo burocraticamente um cargo de funcionário público e não de educador, mas tudo bem... tudo é o processo de sucateamento do saber, em pauta do nosso Governo Federal, mas isso é outra conversa.

O fato é que eu fiquei tri afim de sair fora novamente: eu, que tô corrento atrás da máquina, fazendo filme, trabalhando minha forma de comunicação, levando também o nome do curso por onde ando, abrindo picadas a facão..., tomo esta facada do contra-academicismo. Mas muito dos que me reprovaram ainda não sabem porque eu não tenho onde anotar, mas eles também estão reprovados.

Reprovados!!!!

Não citarei nomes... o preceito Rinri de hoje pede respeito a si e aos outros... Mas escrevo, pois me liberto nas letras. E critico, pois sou livre e assino, como pede a Carta Magna do nosso teatro social, e não admito uma academia que aprisiona muito mais que liberta, que cobra muito mais que concede, que se mantém longe e pune.

E não adianta se disfarçar de moderno, porque o velho eu conheço no olho.